Mais um atraso no acordo Mercosul-União Europeia
A 67.ª Cúpula do Mercosul, encerrada em Foz do Iguaçu (PR) sob o signo da frustração, evidenciou o descompasso entre as aspirações de integração sul-americana e a paralisia decisória do Velho Continente. A ausência de uma assinatura final para o tratado com a União Europeia, após 26 anos de tratativas, expõe a fragilidade de um processo que esbarra, recorrentemente, em protecionismos internos, notadamente o francês. O lamento do presidente paraguaio, Santiago Peña, comparando o bloco a um “noivo esperando no altar”, ilustra o esgotamento de uma paciência diplomática que já não encontra respaldo nos cronogramas do comércio global.
Apesar do otimismo contido na missiva enviada pelos presidentes da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e do Conselho Europeu, António Costa, que projeta uma definição para janeiro, o Mercosul defronta-se com um cenário de ceticismo. Uma reação natural, mas que não pode significar uma paralisia nas ações para a concretização do acordo.
É imperativo que os países do Mercosul reforcem seus esforços diplomáticos para defender, junto às nações da União Europeia, a celebração do acordo entre os dois blocos econômicos. A conclusão deste tratado não é apenas uma questão comercial, mas um movimento geoestratégico de inserção das economias sul-americanas em um mercado de alto valor agregado e rigorosos padrões de sustentabilidade. A abdicação deste objetivo, após décadas de negociações, representaria uma derrota diplomática de proporções históricas e a perda de um pilar de modernização para o parque produtivo regional.
A diplomacia deve atuar para desconstruir resistências setoriais europeias, demonstrando que o acordo é mutuamente benéfico e essencial para a segurança alimentar e energética da Europa, ao mesmo tempo em que garante o desenvolvimento econômico do Mercosul. O diálogo precisa subir de tom, exigindo a “vontade política e coragem” mencionadas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de modo a transformar expectativas em compromissos jurídicos definitivos.
Paralelamente à insistência com Bruxelas, os sócios do bloco devem agir com pragmatismo e buscar novos acordos comerciais com outros países e blocos. A menção a negociações em curso com o Japão e o Vietnã sinaliza uma correta percepção de que o eixo dinâmico da economia mundial deslocou-se para o Indo-Pacífico. O Mercosul não pode ser refém de uma única negociação. A abertura para mercados asiáticos oferece uma alternativa vital para diversificar a pauta exportadora e reduzir a vulnerabilidade externa das nações do Cone Sul.
A estratégia de “caminhar com as duas pernas” — insistir no acordo europeu enquanto se exploram novas fronteiras comerciais — é a única via para o Mercosul em seu atual cenário. Seus países não devem desistir das tratativas com a União Europeia, mas também não podem considerar que tal parceria seja sua única opção em um mercado global cada vez mais dinâmico e diversificado.