Manaus, reforma tributária e reindustrialização: uma oportunidade para o Brasil
O grande desafio que se colocará aos próximos governos do Estado será o equilíbrio fiscal, pois, apesar de ser uma grande unidade da federação em dimensões territoriais, o Amazonas possui poucos habitantes por quilômetro quadrado e uma economia concentrada na capital. Como grande produtor, a reforma tributária transferirá os recursos para os estados consumidores, desabastecendo os cofres locais.
A Superintendência da Zona Franca de Manaus anunciou, no último dia 18 de junho, que o Polo Industrial de Manaus (PIM) ultrapassou US$ 15,09 bilhões, ou R$ 78,5 bilhões, de faturamento entre janeiro e abril de 2026, com crescimento de 4,4%, considerando o mesmo período do ano passado. São mais de 130 mil empregos diretos. Estes números representam um certo otimismo para atividades produtivas na Amazônia que sejam distantes da destruição continuada da sua biodiversidade.
A reindustrialização do País tem uma oportunidade com o PIM, pois há na região uma mão de obra abundante, com trabalhadores qualificados para a indústria, somada com uma estrutura regulatória sólida de incentivos fiscais constitucionais, assegurados pela reforma tributária. Há uma oportunidade grande para empresas industriais se basearem em Manaus. Vale destacar que muito deste crescimento está concentrado nos setores de eletroeletrônicos (com apoio do crescimento das vendas de televisores, por conta da Copa do Mundo), celulares e motocicletas, apoiados por vários motivadores de aquisição para os consumidores. Há diferentes oportunidades em outros campos.
Há ainda uma ocasião a ser desenvolvida a partir da nova política industrial brasileira, que é um conjunto de missões que desenvolvam a indústria da construção civil nacional e outros setores. Por exemplo, precisamos de métodos construtivos mais modernos, para dinamizar um dos setores que mais emprega no Brasil, reduzindo o grande déficit habitacional. Há ainda uma oportunidade para encontrar caminhos de maior aproximação da indústria de Manaus com a natureza da Amazônia, que é uma das poucas críticas que fazem sentido e ainda não foi enfrentada pelos setores público ou privado. Do ponto de vista do arranjo do sistema industrial, também não foi enfrentada com vigor a carência secular de infraestrutura, que precisa ser rompida.
Ao contrário do que a maior parte das pessoas intui, o PIM e o Amazonas mais contribuem com tributos do que recebem de volta em recursos federais. O grande desafio que se colocará aos próximos governos do Estado será o equilíbrio fiscal, pois, apesar de ser uma grande unidade da federação em dimensões territoriais, o Amazonas possui poucos habitantes por quilômetro quadrado e uma economia concentrada na capital. Como grande produtor, a reforma tributária transferirá os recursos para os estados consumidores, desabastecendo os cofres locais. Será necessário ampliar a base de consumo do interior do Amazonas para evitar uma unidade federativa profundamente deficitária, que precisará fortemente dos fundos compensatórios.
Outra oportunidade que se apresenta é a construção continuada de infraestruturas, corrigindo o déficit histórico da região, para que um dia seja viável deliberar pela redução dos benefícios fiscais que permitem esta base industrial. Seria bom que outros estados do País começassem a divulgar dados semelhantes, para que tivéssemos uma transparência e clareza sobre quanto faturam os diversos setores da economia nacional, uma vez que este é um dos elementos de maior compreensão por parte dos empresários e facilitaria um modelo comparativo efetivo por região. Afinal, o PIB é um número recorrentemente usado, mas pouco compreendido, enquanto o total de faturamento é compreendido por qualquer vendedor, gerente de padaria ou de multinacional. Há um espaço para um crescimento continuado de 5% ao ano ao longo dos próximos anos, em especial se os juros básicos do País continuarem a baixar, que é o que todos esperamos.
Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da Universidade Federal do Amazonas. Ele escreve semanalmente para o BE News, com seus textos publicados às terças-feiras.