Minerais críticos: o discurso acertou. Falta a política.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem razão no diagnóstico. Os minerais críticos, caso de lítio, nióbio, cobalto, grafita, terras raras e outros elementos essenciais à economia digital e à transição energética, são o recurso estratégico do século XXI, com a mesma centralidade que o petróleo teve no século XX. O Brasil detém reservas expressivas de vários deles, tem capacidade geológica e industrial para processá-los e está geograficamente posicionado como fornecedor natural para blocos que dependem de diversificar suas cadeias de suprimento face à concentração chinesa. Identificar esse potencial como fonte de soberania financeira, tecnológica e de conhecimento é o tipo de leitura estratégica que líderes de países com vocação de potência fazem — e que o Brasil, historicamente, faz tarde. O problema não está no diagnóstico. Está na distância entre o discurso dessa sexta-feira, dia 10, e a política pública que ele precisa gerar.
A China não domina o mercado global de minerais críticos por acidente, ou por dispor das maiores reservas do planeta. Em vários casos, não as tem. Domina porque, ao longo de três décadas, construiu de forma deliberada e sistemática a cadeia de processamento, refino e manufatura que transforma o minério bruto em material de alto valor para a indústria de baterias, semicondutores e turbinas eólicas. Essa cadeia exigiu investimento público de longo prazo, política industrial com metas claras, formação de mão de obra especializada e paciência estratégica para aceitar perdas de curto prazo em troca de posicionamento de longo prazo. O Brasil exporta, hoje, a maior parte de seus minerais críticos em estado bruto ou com processamento mínimo, reproduzindo com o nióbio, o lítio e o cobalto o mesmo padrão que durante décadas aplicou ao minério de ferro, à soja e ao café: entregamos a matéria-prima e compramos de volta o produto final a preço de tecnologia.
A afirmação do presidente Lula de que, “se o Trump está preocupado com a China, pode começar a estar preocupado com o Brasil”, é retoricamente eficaz. Mas precisa ser apoiada por fatos para ter peso diplomático real. O que tornaria o Brasil uma alternativa aceitável à China, no fornecimento de minerais críticos processados, não é a declaração presidencial de que o País vai fazer isso. É a existência de refinarias, de capacidade de produção de precursores de baterias, de acordos de longo prazo com compradores industriais e de regulação que garanta aos investidores estrangeiros segurança jurídica para comprometer capital em projetos de maturação longa. Nenhum desses elementos existe hoje na escala necessária. A janela de oportunidade aberta pela disputa geopolítica entre Estados Unidos e China é real. E está sendo disputada ao mesmo tempo pela Austrália, pelo Canadá, pela Argentina, pela Indonésia e pela República Democrática do Congo. Não será o discurso mais ousado que vencerá essa disputa, mas o projeto mais sólido.
O BE News concorda que a decisão que o presidente Lula afirmou que precisa tomar, sobre a condução da política de minerais críticos, deve responder a quatro perguntas concretas: quais minerais serão priorizados, em que escala e com que cronograma de desenvolvimento da cadeia de valor? Qual será o modelo de governança — empresa pública, parceria público-privada, concessão regulada —, e como ele garante que o processamento ocorra no Brasil, e não apenas a extração? Como o País desenvolverá a mão de obra especializada em metalurgia de minerais críticos, que hoje não existe em quantidade suficiente? E como a regulação ambiental e as comunidades afetadas pela extração serão incluídas no modelo, de forma que garanta viabilidade de longo prazo e não apenas licença social inicial?
A proposta de usar a Petrobras como financiadora da inovação nessa área tem precedente positivo. A própria Petrobras foi a locomotiva do desenvolvimento tecnológico do pré-sal, gerando capacitação que extrapolou o setor de petróleo. Mas concentrar o impulso de uma política industrial inteira numa única estatal é um risco institucional que o Brasil também conhece bem: quando a estatal enfrenta crise de governança, corte de investimento ou mudança de prioridade do acionista controlador, a política inteira perde sustentação. Os minerais críticos precisam de uma arquitetura institucional mais distribuída, com BNDES, universidades federais, agências de pesquisa e parcerias com empresas privadas nacionais e internacionais, para ter a resiliência que projetos de décadas exigem.
O Brasil tem a geologia. Tem parte da infraestrutura industrial. Tem o momento geopolítico. O que falta é transformar a reunião dessa sexta-feira, por mais importante que seja como sinalização de prioridade presidencial, em um plano com metas, prazos, responsabilidades e orçamento definidos. Países que chegaram antes à mesa dos minerais críticos não chegaram por terem mais minério. Chegaram por terem mais decisão. Esse é o desafio que o presidente Lula acertadamente colocou sobre a mesa. Agora precisa resolvê-lo.