Minha cidade tem um Porto (Alegre)
Mais do que estruturas físicas de movimentação de cargas, os portos públicos são símbolo de história, identidade centenária e desenvolvimento: geram receita que retorna às cidades, atraem investimentos em modernização e sustentam projetos de expansão que mantêm viva toda a região onde estão inseridos.
O Rio Grande do Sul vive um momento de transformações significativas. Em setembro de 2025, o governador Eduardo Leite sancionou a lei que cria a Secretaria da Mulher, um marco histórico na política estadual, entregue à enfermeira e ex-prefeita de Cristal, Fábia Richter (substituída por Ana Costa). Mais do que um novo órgão, a Secretaria simboliza o compromisso do Estado em enfrentar a violência de gênero, ampliar as redes de proteção e promover a autonomia das mulheres gaúchas.
A proposta nasceu de uma mobilização legítima, apresentada ao Governo pela Procuradoria Especial da Mulher da Assembleia Legislativa, como resposta direta aos casos de feminicídio e às diversas formas de violência de gênero que ainda persistem em nosso Estado.
Depois de dez anos sem uma pasta dedicada exclusivamente a essa causa, o Rio Grande do Sul voltou a contar com uma estrutura própria, organizada em três frentes: o enfrentamento à violência contra as mulheres, o fortalecimento das redes de acolhimento e a ampliação da autonomia financeira das mulheres em situação de vulnerabilidade. Somente em 2025, o Governo Estadual destinou mais de R$ 190 milhões a ações voltadas ao público feminino, prova de que a pauta saiu do discurso e entrou na prática orçamentária. Trata-se de uma conquista que responde a uma demanda social urgente e coloca a pauta feminina no centro da agenda pública.
Na mesma direção de fortalecimento do desenvolvimento humano e econômico, o Governo do Estado, em parceria com o Sindicato da Indústria de Energias Renováveis do Rio Grande do Sul (Sindienergia-RS), a Portos RS, a Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs) e a Prefeitura de Porto Alegre, vinha desenvolvendo o programa “Minha Cidade tem um Porto”. A iniciativa nasceu no Porto do Rio Grande, com um projeto-piloto que incluiu a corrida comemorativa dos 109 anos do porto, um concurso de redação com estudantes da rede pública e os Jogos Olímpicos Municipais, ações que reacenderam o orgulho e o senso de pertencimento da comunidade portuária.
Na semana passada, o projeto ganhou a capital: foi lançado no Cais Mauá, em Porto Alegre, ampliando para os portos de Porto Alegre, Pelotas e Rio Grande a mesma missão de aproximar os gaúchos da realidade portuária e logística. Mais do que estruturas físicas de movimentação de cargas, os portos públicos são símbolo de história, identidade centenária e desenvolvimento: geram receita que retorna às cidades, atraem investimentos em modernização e sustentam projetos de expansão que mantêm viva toda a região onde estão inseridos. Mais do que infraestrutura, representam oportunidades de trabalho, inovação e integração com o mundo.
Esses dois movimentos — a criação da Secretaria da Mulher e a expansão do “Minha Cidade tem um Porto” até a capital gaúcha — revelam uma visão integrada de desenvolvimento: olhar para as pessoas e para a economia de forma complementar. Investir nas mulheres é investir em justiça social, cidadania e inclusão. Apostar nos portos é apostar em competitividade, geração de empregos e fortalecimento da economia gaúcha. São agendas que, à primeira vista, parecem distantes uma da outra, mas que, na prática, se encontram exatamente no mesmo lugar: o compromisso genuíno com o bem-estar e a dignidade das pessoas que fazem o Rio Grande do Sul funcionar todos os dias, dentro e fora dos portos.
Ao unir essas agendas, o Governo do Rio Grande do Sul sinaliza que desenvolvimento não se faz apenas com obras ou indicadores econômicos, mas com a valorização das pessoas que constroem esse futuro. São dois grandes passos que apontam para um Estado mais justo, moderno e sustentável, capaz de crescer economicamente sem deixar de olhar para quem sustenta esse crescimento com trabalho, presença e história.
Eu, como mulher gaúcha e portuária há quase vinte anos, não poderia deixar de expressar meu orgulho ao ver essas duas conquistas caminharem lado a lado. Vivi de perto a rotina dos cais, dos guindastes, dos navios que chegam e partem carregando não apenas mercadorias, mas sonhos e histórias de milhares de famílias que dependem do porto para viver. Sei, por experiência própria, o quanto esse ambiente ainda é, em muitos aspectos, um território historicamente masculino, e por isso celebro com ainda mais intensidade a criação de uma secretaria dedicada a garantir espaço, proteção e autonomia às mulheres, inclusive àquelas que, como eu, escolheram construir carreira em setores tradicionalmente dominados por homens.
Celebro também ver o porto da cidade em que nasci, o Porto de Porto Alegre, apresentado à comunidade com o orgulho que sempre acreditei que ele merecia. Ver o Cais Mauá recebendo esse lançamento é, para mim, quase simbólico: o encontro entre a cidade e o porto, crescer e se conectar com o mundo. São dois passos que, juntos, mostram que o Rio Grande do Sul pode ser mais justo e mais forte, sem abrir mão de nenhuma das duas coisas.
Patrícia Lia Brentano escreve quinzenalmente para o BE News.