Missão Índia
O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, embarca nesta segunda-feira para uma semana na Índia com agenda densa: reuniões com a Reliance Industries e o Aditya Birla Group em Mumbai, encontro com empresas brasileiras estabelecidas no mercado indiano em Nova Delhi — Embraer, WEG e Tramontina, entre outras —, reuniões organizadas pela Agência Brasileira de Promoção das Exportações e Investimentos (ApexBrasil) com a Confederation of Indian Industry, a cooperativa de fertilizantes IFFCO, o State Bank of India e o Adani Group, e participação em duas reuniões ministeriais do Brics em Jaipur. É, por qualquer medida, a missão comercial brasileira à Índia mais estruturada dos últimos anos. E chega num momento em que a racionalidade de aprofundar a relação com Nova Delhi é mais evidente do que em qualquer período anterior.
A Índia passou a ser, no ano passado, o parceiro com o qual o Brasil mais ampliou exportações como resposta ao tarifaço americano. E no primeiro semestre de 2026, as vendas brasileiras ao mercado indiano cresceram US$ 2,5 bilhões, em relação ao mesmo período do ano anterior, número que a ApexBrasil destacou ao apresentar os resultados da diversificação comercial após a Seção 301. Com uma corrente de comércio de mais de US$ 15 bilhões em 2025 e uma economia que cresce entre 6% e 7% ao ano com uma população de 1,4 bilhão de pessoas, a mais jovem entre as grandes economias do mundo, a Índia reúne as características de um mercado que o Brasil não pode mais tratar como destino secundário. O segundo maior mercado consumidor do planeta precisa ser uma prioridade estrutural da política comercial brasileira, não uma alternativa acionada quando Washington aperta as tarifas.
A pauta de Nova Delhi revela onde as oportunidades mais concretas residem. A reunião com a IFFCO, maior cooperativa de fertilizantes da Índia, é estrategicamente central: o Brasil importa mais de US$ 12 bilhões em fertilizantes por ano, com dependência crítica de fontes russas e da Bielorrússia, e a Índia é um dos maiores produtores e distribuidores mundiais de fertilizantes nitrogenados e fosfatados. Uma parceria que combine suprimento de fertilizantes indianos para o agronegócio brasileiro com exportação de matérias-primas agrícolas e amônia verde brasileira para a cadeia indiana de fertilizantes de baixo carbono é exatamente o tipo de complementaridade estrutural que acordos bilaterais deveriam buscar, e que raramente materializam porque a negociação para antes dos contratos. O encontro com o Adani Group, maior conglomerado de infraestrutura e logística da Índia, abre outra frente: o grupo tem projetos portuários, aeroportuários e de transmissão de energia em vários países emergentes e poderia ser parceiro relevante para projetos brasileiros nas mesmas áreas, da modernização portuária ao hidrogênio verde do Nordeste.
Este cenário mostra que a missão à Índia tem valor real. E tem limites igualmente reais que precisam ser nomeados. Reuniões com CEOs de grupos como Reliance, Aditya Birla e Adani não produzem contratos; produzem intenções. A conversão de intenções em investimento depende de condições que missões ministeriais isoladas raramente conseguem criar: continuidade de interlocução técnica após o retorno do ministro, marco regulatório que ofereça ao investidor indiano a previsibilidade que ele consegue em outros mercados emergentes, e instrumentos de financiamento bilateral, como os mecanismos que o encontro com o State Bank of India pode ajudar a estruturar, que reduzam o custo e o risco das operações comerciais entre os dois países. Sem essas condições, a agenda de Jaipur, Mumbai e Nova Delhi será lembrada como uma semana de boas reuniões, o que, no Brasil, costuma ser o ponto de chegada, e não o ponto de partida.
O Brasil e a Índia têm mais em comum do que suas correntes de comércio ainda refletem: são as duas maiores democracias do hemisfério sul, ambas produtoras de alimentos que o mundo precisa, ambas com ambições industriais que dependem de acesso a tecnologia e capital estrangeiro, e ambas navegando num mundo em que as regras do comércio global estão sendo reescritas por potências que raramente consultam seus interesses. Construir uma parceria estratégica real entre os dois países, não apenas comercial, mas tecnológica, energética e de infraestrutura, é uma das agendas mais importantes que a diplomacia econômica brasileira pode perseguir nesta década. A semana que começa hoje em Mumbai é uma boa oportunidade para começar. Que não seja a única.