Mistério dos voos fatais
Muito me intriga a vida, entre seu esplendor e a dor que por vezes me causa. Sou expectador do que me reservam os céus, caminhante que, inspirado na Lua, miro as estrelas e vejo às vezes desabarem as nuvens.
Sim, há algo no céu que não são os aviões de carreira, tampouco satélites perdidos, quem sabe naves alienígenas, ou simplesmente a vontade do Universo. Os céus – o que todos vemos e o que vive em mim – conjugam a vida com intrigas e surpresas.
Sempre notei que um acidente aéreo era seguido de outros dois nos dias seguintes. Cogitava com meus botões a reiterada coincidência quando me deparava com uma triste notícia. E como devoto da minha teoria, sem augurar a fatalidade, ficava à espera do que estava por vir.
E quando, passados alguns dias, se proclamava o terceiro infortúnio, sentia alívio na alma por não esperar mais outra manchete.
Era uma situação que me deixava cabreiro, e acreditava que se devia à instabilidade emocional dos pilotos, traumatizados com a primeira tragédia. Afinal todos fazemos parte de um todo. O solidário sentimento liga-nos àqueles que, mesmo não conhecendo pessoalmente, nos tocam e corrompem nossa segurança.
Minha crença, porém, veio por terra há semanas, quando os céus começaram a expelir aviões, numa sucessão muito além de falhas humanas. Sempre se disse que um acidente aéreo é sempre a conjugação de várias causas objetivas. Mas isto não me basta e, mesmo sendo avesso ao misticismo, me quedo profundamente intrigado.
Que artes os céus aprontam nestes tempos de tantas descobertas que nos fazem desconfiar cada vez mais do nosso mundo?
Não, não creio em bruxas, mas… Meu espírito intranquilo vagueia entre muitas especulações. Da dita inversão dos polos às intemperanças do clima. Da sobrecarga de naves nos céus e dos aeroportos à deficiência do que se está a fabricar e manter nas rotas da aviação.
Tudo pode fazer sentido, penso, e paira no meu recôndito céu o temor de que algo eu não alcance. Busco aflito uma explicação que minha lógica possa alcançar. Mas fico ainda mais perdido quando me deparo no carrossel das redes sociais com uma senha: apocalipse 9, capítulo bíblico do Novo Testamento, atribuído ao apóstolo João.
Nele se anuncia que um dia o céu despencará tropas de gafanhotos com carcaça de metal e rabo de escorpião para nos torturar por longos e tristes cinco meses.
Acho que está na hora de parar de buscar explicações para aquilo que de mim independe e prefiro simplesmente mirar os céus. Que a Lua me brinde com sua tenra luz a ressaltar o brilho das estrelas em que tento me inspirar nestes céus que me abrigam.