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Adilson Luiz Gonçalves

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Musk e “drones”

“O problema não está na produção de “drones”, que são apenas veículos de transporte. O importante é o que eles transportam: sensores de múltiplos espectros e equipamentos de vários tipos e finalidades. Nas aplicações militares, a capacidade de transporte de armamentos, dispositivos de reconhecimento e furtividade são itens indispensáveis à superioridade estratégica dissuasiva, persuasiva ou em cenários conflagrados”

Elon Musk é uma figura controversa, enaltecido por uns e demonizado por outros, como toda figura pública tende a ser, segundo os conceitos, crenças e ideologias de quem avalia.

No entanto, não se pode negar que tem um certo “toque de Midas”, ou seja, várias de suas ideias e apostas têm alcançado bons resultados. De outra forma, não teria acumulado sua fortuna, se bem que ser rico necessariamente não é sinal de virtude, ou exemplo a ser seguido.

Recentemente, ele afirmou: “Os países que não fabricarem seus próprios drones serão estados vassalos”, o que indicou seu próximo alvo.

Essa afirmação já cabe bem aos países que dispõem de poderio bélico nuclear, e até um filme antigo, “O rato que ruge” (1959), exemplificou essa tese, a Coreia do Norte que o diga.

O Brasil tem alternado sua vassalagem desde sua “descoberta”, sob influência das potências da vez. Vassalagem direta, quando governo, e indireta, quando oposição.

Ao longo dos séculos, governos brasileiros “balançaram” entre Inglaterra, França, Alemanha, EUA e URSS, reproduzindo aqui disputas econômicas e ideológicas mundiais.

Assim, quando alguém fala em soberania nacional, nem sempre sabe exatamente o que é isso. Às vezes, só está trocando uma subserviência por outra. Pior, pode ser um arroubo megalomaníaco e inconsequente.

A afirmação de Musk revela sua intencionalidade, precisa explicar como os países se enquadram em sua eventual estratégia empresarial. Ele pretende construir fábricas em cada país interessado em não ser vassalo? As fábricas serão nacionalizadas em cada país? Como ficará o P&D em cada país, ou será que a vassalagem passará a ser tecnológica, subordinada às suas empresas?

Esses questionamentos são possíveis, mas não discordo da importância de investimentos nesse tipo de tecnologia e produção industrial no Brasil. Tanto é que, quando propus a criação de uma Zona de Processamento de Exportação (ZPE) em Santos/SP, dentre as possíveis produções, listei a de “drones” aéreos e marítimos.

Esses veículos não tripulados apresentam vantagens estratégicas em múltiplos setores, incluindo: segurança, defesa, inspeção, vigilância, manutenção, etc.

Num evento sobre agronegócio, vi um “drone” utilizado para aplicação de defensivos agrícolas. Perguntei onde era fabricado. Responderam que era importado da China, para variar.

“Drones” de asa fixa, rotativa ou submersíveis podem ter múltiplos usos, e sua utilização evita riscos à vida humana.

Eles são utilizados em levantamentos topográficos, inspeção de estruturas e redes de utilidades aéreas ou submersas, incluindo navios e plataformas de exploração de petróleo e gás, e vigilância de fronteiras e águas territoriais, entre outras aplicações, com significativa redução de custos de operação e manutenção.

Também são utilizados militarmente. A guerra entre a Ucrânia e a Rússia tem sido um exemplo dramático da aplicação bélica dos “drones”, alguns deles fabricados na Turquia, país que vem se destacando na indústria aeroespacial, inclusive com parcerias com empresas brasileiras.

De fato, o uso de “drones” no âmbito militar tem sido uma tendência mundial, sobretudo por parte de países economicamente desenvolvidos ou “vassalos” destes. Se poupam vidas, por parte de quem ataca, sua letalidade pode ser ainda maior para o atacado.

O Brasil produz “drones”? Sim, produz alguns tipos.

O problema não está na produção de “drones”, que são apenas veículos de transporte. O importante é o que eles transportam: sensores de múltiplos espectros e equipamentos de vários tipos e finalidades. Nas aplicações militares, a capacidade de transporte de armamentos, dispositivos de reconhecimento e furtividade são itens indispensáveis à superioridade estratégica dissuasiva, persuasiva ou em cenários conflagrados.

Por tudo isso, o ponto-chave não está na produção de “drones”, mas no desenvolvimento de tecnologias e dispositivos a serem incorporados neles.

Existem sensores e aplicativos de vários tipos, alguns mantidos em segredo absoluto, e não apenas protegidos por patentes. Sua autonomia de deslocamento e de controle remoto é outro item relevante.

E mesmo no caso de patentes, vários países e empresas praticam espionagem industrial e engenharia reversa, ou seja, obtêm um produto para estudá-lo, objetivando reproduzi-lo e aprimorá-lo. A China é um exemplo recente e bem-sucedido desse processo evolutivo.

Uma matéria recente deu conta de que a Coreia do Sul comprou alguns veículos produzidos pela chinesa Xiaomi, para estudar sua tecnologia. Quem diria…

O que poderia ser considerado uma substituição de importações, como ocorreu no Brasil, em função da Segunda Guerra Mundial, agora é instrumento de preparo para competir em exportações.

O caso da Coreia do Sul também é um exemplo emblemático, que começou baseado na adoção do modelo de ensino adotado no Brasil, nos anos de 1970.

Onde estão Brasil e Coreia do Sul atualmente, no setor educacional?

Segundo o levantamento do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA), sistema que mede o desempenho de estudantes de 15 anos em leitura, matemática e ciências, em 2022, a Coreia do Sul ocupava a 6ª posição em Matemática e 5ª em Ciências. Acima dela estavam apenas países asiáticos. Quanto ao Brasil, estava em 65º e 62º, respectivamente, entre 81 participantes, posições consideradas abaixo da média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Considerando esses resultados, é necessário revisar alguns conceitos e referências adotados no modelo de ensino brasileiro. Se o modelo atual for considerado um exemplo de soberania nacional, continuaremos décadas atrasados em relação aos países desenvolvidos.

O Brasil tem um povo que já demonstrou inteligência para superar inúmeros desafios.

O país é referência mundial na indústria aeroespacial, mas nem todos os técnicos formados em áreas voltadas ao desenvolvimento tecnológico encontram mercado de trabalho por aqui. No entanto, corporações internacionais os procuram com frequência.

Quando se fala em soberania sobre matérias-primas, também é fundamental pensar em como aproveitá-las internamente, ou seja, ter soberania tecnológica sobre elas. Nesse âmbito, se investe muito mal em pesquisa científica voltada à tecnologia em nosso país. Não à toa, somos importadores de produtos de alta tecnologia, extremamente dependentes dos interesses corporativos e estratégicos de corporações internacionais e países. Porém, não é o único nem o mais importante.

Produzir “drones” e tecnologias a serem neles embarcadas é um nicho bastante interessante, seja para o mercado interno, seja como um item de exportação.

Sua produção em ZPEs tende a tornar esses produtos competitivos no mercado internacional. Por ser uma produção ainda incipiente no Brasil, outros incentivos podem torná-los atrativos no mercado interno, vantajosos em relação a produtos importados.

Elon Musk não é uma unanimidade mundial, mas seguramente é um empresário visionário e bem-sucedido.

Sua participação em nível governamental foi efêmera e pouco memorável, pois não é fácil separar interesses empresariais dos de estado.

Ele tem razão quanto à necessidade de países investirem em P&D como forma de alcançar autodeterminação, mesmo considerando a interdependência mundial em vários setores. No entanto, sua manifestação parece mais a expressão de uma oportunidade de negócio do que uma efetiva exortação a países emergentes. Se for assim, a vassalagem geopolítica será substituída pela vassalagem tecnológica, pois o risco de controle externo, remoto, ocorrerá.

No mais, o que ele disse é aplicável em vários outros âmbitos, o que não é nenhuma novidade.

Se o Brasil pretende alcançar efetiva soberania, precisa investir mais em desenvolvimento tecnológico, em educação de qualidade, aqui e fora do país, e criar condições para manter as inteligências e competências por aqui, com recursos adequados para desenvolverem plenamente seus potenciais.

O resto é discurso!

 

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