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Hudson Carvalho

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Não confunda direção com sentido

Liderar não significa apenas conduzir pessoas na direção de um objetivo. Significa preservar o sentido da caminhada e garantir que cada decisão permaneça coerente com os princípios que justificaram o primeiro passo.

Durante a faculdade de Engenharia, um professor repetia um alerta que naquela época parecia apenas técnico:

— Não confundam direção com sentido.

Naquele momento, tratava-se apenas de resolver corretamente um problema de Física. Um vetor possui ponto de partida, direção, sentido e intensidade. Confundir dois desses elementos era suficiente para errar a resposta.

Anos mais tarde, descobri que aquela lição jamais foi apenas sobre vetores.

Passei doze anos na Engenharia, desenvolvendo soluções para máquinas e processos industriais. Quando decidi migrar para a área de gestão de pessoas, ouvi inúmeras vezes o mesmo comentário de colegas bem-intencionados:

— Cuidado. “Gente não tem botão.”

A observação parecia fazer todo o sentido. Máquinas respondem a comandos. Pessoas, não.

Durante algum tempo, acreditei nisso, até perceber que estávamos procurando o botão no lugar errado.

Hoje penso exatamente o contrário.

Descobri que gente tem botão, sim. O botão da motivação. A diferença é que ele nunca responde à força. Responde ao significado.

Foi quando compreendi que liderar pessoas tem muito menos relação com dar comandos do que com despertar significado. Foi ali que começou minha verdadeira jornada na liderança e no desenvolvimento de líderes. Percebi também que aquele antigo professor de Física, sem imaginar, havia me apresentado uma das metáforas mais precisas sobre liderança.

Na Física, dois vetores podem ter exatamente a mesma direção e seguir em sentidos opostos.

Parece um detalhe. Mas muda tudo.

Ao longo da carreira, vi profissionais conquistarem cargos e reconhecimento enquanto perdiam o entusiasmo pelo que faziam. Vi organizações crescerem rapidamente ao mesmo tempo em que se afastavam do propósito que justificava sua existência. Vi líderes tão concentrados em avançar que deixaram de fazer a pergunta mais importante de todas.

Quo vadis, Domine?

Há quase dois mil anos, segundo a tradição cristã, o apóstolo Pedro, ao deixar Roma para escapar da perseguição aos cristãos, encontrou Jesus no caminho e perguntou: “Quo vadis, Domine?” — “Para onde vais, Senhor?” A resposta foi: “Voltando a Roma para ser crucificado pela segunda vez.”. Ao compreender o significado daquele encontro, voltou à cidade para cumprir sua missão. Desde então, essa pergunta atravessou os séculos como um convite à reflexão sobre o verdadeiro sentido da própria caminhada.

Nenhum líder deveria passar muito tempo sem fazê-la a si mesmo.

Existe, porém, outro aspecto dos vetores que costuma passar despercebido.

Todo vetor tem um ponto de partida.

É dele que direção e sentido deixam de ser apenas conceitos matemáticos e passam a ganhar significado.

Na liderança acontece exatamente o mesmo.

As organizações dedicam enorme energia às estratégias, aos indicadores, às metas e aos resultados. É natural. Resultados importam.

O problema é que quase sempre prestamos mais atenção ao movimento do que aos fundamentos que o sustentam.

É nesse ponto inicial que vivem os valores, os princípios e as escolhas que moldam a cultura organizacional. É dessa base que nasce a confiança, se fortalece a liderança e se constrói a capacidade de uma organização sustentar resultados consistentes ao longo do tempo.

Estratégias mudam. Processos evoluem. Tecnologias transformam mercados. Metas são revisadas.

Mas nenhuma estratégia consegue compensar, por muito tempo, fundamentos equivocados.

Depois de muitos anos dedicados ao desenvolvimento de líderes, à consultoria e à educação executiva — experiência que hoje tenho o privilégio de ampliar na BE Executive Academy — concluí que a liderança nunca foi apenas movimento. Ela é consequência de princípios sólidos, de uma cultura organizacional consistente e de escolhas feitas muito antes dos resultados aparecerem.

Liderar não significa apenas conduzir pessoas na direção de um objetivo. Significa preservar o sentido da caminhada e garantir que cada decisão permaneça coerente com os princípios que justificaram o primeiro passo.

No fim, talvez a pergunta mais importante não seja: Para onde estamos indo?

Mas outra, ainda mais exigente: De onde nascem as decisões que nos colocam em movimento?

Quem sou eu? Por que faço o que faço?

A direção define o caminho. O sentido justifica a caminhada.

Mas são os fundamentos que dão significado a ambos.

Porque ninguém chega ao destino certo quando perde o sentido da própria caminhada.

Hudson Carvalho é diretor-executivo da BE Academy. Consultor em Estratégia de Gestão de Pessoas, atua também como diretor regional da Wisdom – Gestão Organizacional (Desenvolvemos Pessoas e Processos) para o ABCD e Baixada Santista (SP) e diretor executivo da Elabore-Online – Pessoas e Resultados. Ele escreve semanalmente para o BE News, com seus artigos sendo publicados às segundas-feiras.

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