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Beatrice de Toledo Dupuy

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Não é sobre paz: é sobre coerência — sustentabilidade em tempos de guerra

Empresas com estratégias ESG estruturadas tendem a responder melhor a choques externos, pois já incorporaram a gestão de riscos, a visão sistêmica e a responsabilidade socioambiental em suas decisões. Não se trata de resistir às mudanças, mas de navegar por elas com consistência, mantendo princípios mesmo sob pressão e incerteza.

A cada novo conflito no Oriente Médio, uma pergunta silenciosa se impõe: o que acontece com a sustentabilidade quando o mundo entra em crise?

Em um cenário de instabilidade crescente, fica evidente que a sustentabilidade não é uma linha reta. Ela avança, recua, é tensionada e, muitas vezes, colocada à prova justamente quando mais precisamos dela.

Guerras não impactam apenas territórios. Elas reverberam em cadeias globais, mercados, decisões políticas e, sobretudo, na forma como empresas e sociedades priorizam suas escolhas. Nesse contexto, a sustentabilidade deixa de ser apenas uma agenda de longo prazo para se tornar um teste imediato de coerência entre discurso e prática, intenção e decisão.

Do ponto de vista ambiental, os efeitos são diretos e devastadores. A destruição de infraestrutura crítica, como refinarias, portos e centros urbanos, gera poluição intensa do ar, contaminação do solo e da água, além de impactos duradouros sobre ecossistemas já fragilizados. Em regiões historicamente marcadas pela escassez hídrica e por condições climáticas extremas, os danos se amplificam e se tornam ainda mais difíceis de reverter, comprometendo não apenas o presente, mas também a capacidade de regeneração no longo prazo.

Mas talvez um dos efeitos mais silenciosos e perigosos esteja na energia. Em momentos de instabilidade geopolítica, a segurança energética passa a ocupar o centro das decisões globais. Países buscam garantir abastecimento imediato, muitas vezes ampliando o uso de combustíveis fósseis, reativando fontes mais poluentes ou adiando compromissos climáticos previamente assumidos. O resultado é um possível retrocesso na transição energética, justamente quando o mundo já opera com margens cada vez mais estreitas para conter o aquecimento global e cumprir metas internacionais.

Para o setor logístico e portuário, esse cenário se traduz em desafios concretos e imediatos. Rotas marítimas são alteradas, viagens se tornam mais longas, custos aumentam e, inevitavelmente, as emissões também. A eficiência logística, tão alinhada às metas de descarbonização, passa a disputar espaço com a urgência operacional e a necessidade de garantir fluxo contínuo de mercadorias. Mais do que nunca, decisões precisam equilibrar continuidade dos fluxos globais com responsabilidade ambiental e visão de longo prazo.

Sustentabilidade, nesses momentos, deixa de ser discurso e se transforma em capacidade real de adaptação. Empresas com estratégias ESG estruturadas tendem a responder melhor a choques externos, pois já incorporaram a gestão de riscos, a visão sistêmica e a responsabilidade socioambiental em suas decisões. Não se trata de resistir às mudanças, mas de navegar por elas com consistência, mantendo princípios mesmo sob pressão e incerteza.

Há também um impacto humano que não pode e não deve ser ignorado. Conflitos ampliam desigualdades, geram deslocamentos em massa e fragilizam comunidades inteiras. Nesse contexto, o “S” do ESG ganha ainda mais relevância. O papel das empresas vai além da operação. Envolve apoiar, acolher e contribuir para soluções, ainda que em pequena escala, que façam diferença real na vida das pessoas e na reconstrução de vínculos sociais muitas vezes rompidos pela violência.

Do ponto de vista da governança, a complexidade também aumenta. Decisões passam a considerar não apenas eficiência e resultado, mas também ética, reputação e alinhamento com valores institucionais. Investir, operar ou se posicionar em contextos sensíveis exige um nível elevado de responsabilidade, transparência e discernimento estratégico 

especialmente em um ambiente global cada vez mais interconectado e exposto.

Diante desse cenário, surge um questionamento inevitável: a sustentabilidade resiste em tempos de crise?

A resposta, talvez, seja menos sobre resistência e mais sobre relevância. É justamente nos momentos de maior instabilidade que a sustentabilidade se mostra essencial, não como um ideal distante, mas como um guia prático para decisões mais equilibradas, responsáveis e coerentes.

Se a guerra expõe fragilidades, ela também evidencia a importância de construir modelos mais resilientes. Cadeias mais robustas, fontes de energia mais limpas e diversificadas, relações mais éticas, transparentes e duradouras. Tudo isso deixa de ser diferencial competitivo e passa a ser necessidade estratégica.

No fim, não é a ausência de crise que define quem somos, mas as escolhas que fazemos quando ela chega. Porque, em última análise, sustentabilidade não é sobre cenário. É sobre coerência.

Béatrice de Toledo Dupuy escreve mensalmente para o BE News.

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