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Adilson Luiz Gonçalves

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Nem tanto ao mar, nem tanto à guerra

O Brasil precisa buscar soluções internas que reduzam sua dependência de importações de insumos para fertilizantes — matéria-prima imprescindível para o agronegócio — e derivados de petróleo, sobretudo o diesel.

O Instituto Brasileiro de Infraestrutura (IBI) promoveu, no dia 17/03/2026, uma reunião para tratar do tema: “Impactos da Guerra na Navegação”.

Em tese, a guerra em questão é a que envolve Estados Unidos, Israel e Irã. No entanto, a discussão foi bem mais além, até por conta dos que se manifestaram. Havia representantes de armadores, operadores, especialistas em Direito Marítimo, seguração e operações portuárias, membros do Governo Federal, dirigentes de associações empresariais ligadas ao setor marítimo, estrategistas militares, enfim, um público extremamente bem qualificado para discutir o tema de forma tão profunda quanto abrangente, e não decepcionaram.

Fiquei feliz em saber que praticamente tudo o que foi apresentado e discutido já foi abordado de alguma forma nos artigos que produzi. Contente, também, por verificar que minhas percepções estão alinhadas com as dos especialistas que se manifestaram.

De fato, a mencionada guerra tem impactos significativos na economia e na estabilidade geopolítica mundial.

O Brasil é afetado tanto no nível da importação de ureia do Irã — insumo fundamental para a produção de fertilizantes — como nas exportações de milho para aquele país e proteína animal para os demais países vizinhos.

O fechamento do Estreito de Ormuz, com navios atacados pelo Irã, e os houthis, seus aliados, fazendo o mesmo a partir do Iêmen, na entrada do Mar Vermelho, contra navios que buscam o Canal de Suez, afetaram cerca de 20% da movimentação mundial de petróleo. Além disso, o fato de o Irã retaliar os EUA, atacando suas bases militares nos países do Oriente Médio, potencializou a ampliação do conflito em nível regional.

O Irã, desde 1979, se armou “até os dentes” para defender e difundir o fundamentalismo islâmico, inclusive financiando células terroristas e grupos radicais na região e mundo afora.

A área é historicamente complexa, já tendo sido objeto de desejo e poder de impérios, da mesma forma que, na Antiguidade, o poderoso Império Persa, nos tempos de Ciro e Xerxes, também teve interesses hegemônicos.

Esses interesses externos fizeram do Irã a “ponte” para britânicos enviarem armamentos e outros recursos para a URSS, durante a Segunda Guerra Mundial.

Até 1979, o Irã era um aliado dos EUA na região, adotando modos ocidentais e dotado de poder bélico significativo. Após a implantação do regime fundamentalista muçulmano, a nação passou a confrontar países aliados do Ocidente, embora mantivesse ativo seu comércio de petróleo.

Além de comprador de armamentos, principalmente da URSS/Rússia, passou a desenvolvê-los, criando equipamentos sofisticados, tecnologia de ponta. A guerra contra o Iraque (1980-1988) demonstrou seu poderio militar.

O Irã poderia se manter próspero, mesmo em meio a um regime radical e repressor, mas justamente esse fundamentalismo o colocou no foco de atenção de Israel e seu aliado, os EUA.

Lembro do Aiatolá Khomeini dizer que só haveria paz no Oriente Médio quando Israel fosse destruído, sob o olhar de idolatria dos que o circundavam.

Seus sucessores não mudaram de intento, e a relação entre Irã e Israel sempre foi crítica, inclusive com ataques esporádicos e cirúrgicos, até a conflagração total atual.

O Irã atravessa um momento de instabilidade interna, com parte significativa da população reivindicando flexibilização e até queda do regime fundamentalista totalitário. A repressão violenta a esse movimento popular foi a desculpa que faltava para Israel e os EUA iniciarem seus ataques.

Apesar da destruição de vários meios militares iranianos e do ataque a instalações nucleares, consideradas como potenciais produtoras de armamentos críticos, o Irã tem demonstrado a resiliência característica da doutrinação fanatizante. Os desdobramentos do conflito ainda são nebulosos, apesar do discurso do presidente norte-americano Donald Trump. Serão similares aos das guerras entre Ucrânia e Rússia, do Afeganistão, da Indochina/Vietnã ou da Coreia?

Até onde lembro, a única guerra em larga escala vencida em pouco tempo foi a Guerra dos Seis Dias, entre Israel e países árabes (1967). Os meios e doutrinas militares atuais são bem diferentes.

Ao longo das apresentações feitas na reunião do IBI, esse tema foi abordado sob múltiplos aspectos, incluindo: a guerra, em si; seus impactos na segurança física e patrimonial (safety and security) no transporte marítimo; o custo do frete; demurrage e detention; impactos no comércio exterior para o Brasil e o mundo; custo do bunker e de outros combustíveis fósseis no Brasil; a autossuficiência nacional da extração de hidrocarbonetos, mas deficiência em seu refino; e as restrições e falta de investimentos em exploração de riquezas naturais, infraestrutura, logística e produção no País, entre outros. Temas que se confundem e interagem.

Foi unanimidade que o Brasil precisa buscar soluções internas que reduzam sua dependência de importações de insumos para fertilizantes — matéria-prima imprescindível para o agronegócio — e derivados de petróleo, sobretudo o diesel.

No caso específico dos fertilizantes, um dos expositores lembrou da guerra entre Ucrânia e Rússia, que já dura quatro anos, que os russos também achavam que seria rápida.

As importações de potássio foram sensivelmente prejudicadas, sendo que poderiam ser substituídas pela exploração desse insumo no Brasil, mas foram prejudicadas por restrições relativas a “terras indígenas”.

Essas e outras restrições similares ou de cunho ambiental também foram mencionadas como fatores que limitam o desenvolvimento sustentável do Brasil e sua fragilidade perante o cenário geopolítico atual.

O presidente Trump pressiona países europeus a apoiarem militarmente as ações contra o Irã. No entanto, há resistência contra a entrada de membros da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), a maior aliança-militar do mundo, nesse imbróglio, pois estaria fora da esfera desse tratado internacional. Alguns países optaram por negociar diretamente com o Irã seus interesses comerciais.

Trump alertou que essa recusa em prestar apoio representará um “futuro muito mau” para a Europa. A ameaça de retirada dos EUA da Otan seria uma das consequências, lembrando que Trump também ameaça retirar seu país da Organização das Nações Unidas (ONU).

Esse radicalismo do governo dos EUA é, de certa forma, semelhante ao do governo russo, uma virtual ditadura. Assim como Putin se achou no direito de atacar a Ucrânia, em busca de territórios, matérias-primas e instalações portuárias estratégicas no Mar Negro, os EUA, com a justificativa de combate ao narcoterrorismo, mas também à crescente influência da China nas Américas e Caribe, secundada pela Rússia, fizeram incursões militares na Venezuela, ameaçam tomar Cuba e criaram um grupo de países independentemente da OEA (Organização dos Estados Americanos), excluindo Brasil, Colômbia e México.

O episódio do bombardeio aéreo de um avião equatoriano na fronteira com a Colômbia seria um primeiro reflexo desse acordo?

As iniciativas de Putin e Trump acendem o alerta a uma possível reincorporação de Taiwan pela China (a separação ocorreu em 1949). Xi Jinping tem sinalizado essa intenção e tem poderio militar para tal empreitada, embora isso também repercuta regional e internacionalmente, gerando preocupação da Coreia do Sul e do Japão, países alinhados com os EUA.

Essa potencial ação da China em relação a Taiwan foi enfatizada como muito provável pelo especialista em estratégia da Escola Superior de Guerra que participou brilhantemente da reunião do IBI.

EUA, Rússia e China continuam com a mentalidade de “quintais”.

Afora questões geopolíticas, há a preocupação pelo fato de Taiwan representar cerca de 70% da produção de semicondutores.

E no caso do Brasil, uma recente manifestação do cônsul-geral dos EUA no Estado de São Paulo, Kevin Murakami, em relação ao Porto de Santos, apontou a preocupação da autoridade com o narcotráfico no complexo marítimo e a potencial participação da China no leilão do Tecon Santos 10, megaterminal de contêineres a ser implantado no cais santista. Ele mencionou o Porto de Chancay, no Peru, como motivo para essa preocupação.

Há uma diferença básica entre os dois casos, pois o Porto de Chancay é um terminal privado construído por empresas chinesas, enquanto que o Tecon Santos 10 será um terminal público arrendado em área de porto organizado.

Paradoxalmente, o cônsul defende que o leilão seja aberto, mas com restrição à participação de estatais chinesas, alegando riscos comerciais, de soberania nacional e geopolíticos.

Essa abertura interessa a armadores internacionais, mas essa possível restrição é complexa, lembrando que já existe um terminal arrendado à chinesa Cofco no Porto de Santos.

A China busca mercados e matérias-primas de forma agressiva (“Nova Rota da Seda”), de certa forma considerando seus investimentos em infraestrutura como “território”, motivo das preocupações dos EUA no âmbito das Américas Central, do Sul e Caribe.

A China evoluiu economicamente a partir de opções estratégicas, que incluíram a transferência de tecnologia em contrapartida à implantação de indústrias internacionais em suas zonas econômicas especiais (ZEE), a formação de quadros nas melhores universidades do mundo, condições de trabalho interessantes e investimentos em pesquisa científica e produção de patentes. A criação de novos portos associados a plantas industriais colocou, em curtíssimo espaço de tempo, seis portos chineses entre os 10 principais do mundo, sem considerar o Porto de Hong Kong.

Os EUA não parecem interessados em investir no desenvolvimento econômico do Brasil.

Além do expressado pelo cônsul-geral, os EUA também estão interessados em minerais críticos e terras raras, assim como a Índia.

Para o Brasil, é fundamental diversificar sua carteira de exportações, agregando tecnologia e valor aos nossos produtos. No entanto, isso depende fundamentalmente de iniciativas de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I).

A Universidade de São Paulo (USP) assumiu esse papel no âmbito dos minerais críticos e terras raras, elementos fundamentais no processo de transição energética.

Tudo isso foi abordado na reunião do IBI de forma aprofundada e apropriada. E a importância da revisão da legislação nacional, do planejamento estratégico de Estado e, ainda, da necessidade de as Forças Armadas se equiparem para assegurar efetivo poder de dissuasão naval, terrestre e aéreo foi uma das conclusões.

O IBI, como suporte técnico da Frente Parlamentar de Portos e Aeroportos (FPPA), poderá encaminhar de forma objetiva esses temas, para que sejam apreciados pelo Congresso Nacional.

O que se espera é que nossos parlamentares busquem formas de eliminar conflitos e racionalizar o nosso arcabouço legal, alinhando-o com os interesses do Brasil, eliminando burocracia, radicalismos ideológicos, disputas político-partidárias deletérias e judicializações baseadas em litigâncias protelatórias, que tanto têm prejudicado o desenvolvimento do país.

Parabéns à IBI por mais uma importante iniciativa, e a todos os que participaram da reunião!

Aguardemos os desdobramentos.

Adilson Luiz Gonçalves escreve semanalmente para o Jornal BE News, com seus artigos publicados na edição de sábado e domingo.

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