Nós e as ilhas
Não subestime jamais uma ilha. Longe ou perto, faz parte da vida, quando não é sinônimo dela. Há dias penso nisso desde que li sobre a Trindade. Nunca soube de sua existência até que tomei conhecimento num informe da Marinha. Está na Amazônia Azul, como chamam aquele manancial de riquezas naturais, ainda a desvendar, no meio do Atlântico. Precisamente a 1.140 km de Vitória.
Trindade foi descoberta em 1501, é sentinela do território brasileiro com 36 marinheiros e alguns pesquisadores, todos empenhados em regenerar seu bioma, ameaçado por cabras, porcos e camundongos desde que o inglês Halley a ocupou em 1700, achando que havia feito grande descoberta.
Uma ilha tem múltiplos sentidos e amplas dimensões. Pode ser um ponto de esperançosa partida. Também de feliz ou triste chegada. Pode ainda ser apenas uma parada de aves migrantes no percurso em alto mar.
Quando li sobre Trindade, de cara me lembrei de Robinson Crusoé, romance fictício de Daniel Defoe, que conta sobre um náufrago inglês que viveu solitariamente numa ilha até que encontrou um silvícola, a quem chamou Sexta-Feira, e tristemente fez de escravo. E depois voltou ao mundo. Como se aquela ilha também não o fosse.
Viver numa ilha é desafiador, tais as agruras da natureza no meio do oceano. Às vezes também em nossa cabeça. Ficção ou realidade, sempre desperta nossos espíritos. Em maio de 1976, entrevistei Hiroo Onoda, soldado japonês que lutou por 30 anos em Lubang, uma ilha filipina, mesmo havendo a Segunda Guerra terminado há tanto tempo. Só aceitou depor a arma quando seu comandante pessoalmente o dispensou.
A vida inóspita não gerou, porém, um louco. Resgatado, o soldado do imperador escreveu um livro, ganhou muito dinheiro, comprou terras no Mato Grosso e se casou.
As vicissitudes não são necessariamente prenúncio de infortúnio, que por vezes surge sem motivo algum. Uma ilha é algo que existe da maneira que a vemos e muitos poetas tentaram alertar. John Donne proclamou que nenhum homem é uma ilha, ao ressaltar a relação que temos com o resto da espécie. Por vezes nos esquecemos disso, nos tornamos ilhéus sem capacidade de fazer o que José Saramago disse, ao lembrar que, para enxergar a ilha, temos que sair dela.
Às vezes a ilha somos nós. Esses torrões no mar são mais importantes quanto mais distantes se acham do nosso olhar e nos desafiam a desnudar seus mistérios. E a vencer as agruras em que vivemos.
Sim, o distanciamento é importante na percepção da ilha, por vezes um reino a conquistar. Desde as 365 ilhas da paradisíaca Angra dos Reis, até a lúdica Fernando de Noronha, que leva o nome do primeiro cidadão português autorizado pela corte a explorar o pau-brasil, e que até então pensei que fosse nossa ilha mais distante.
Ilha é território inóspito mais para quem não está acostumado. E fosse eu exotérico, não voltaria mais à Ilha dos Frades, a caminho de Itaparica, onde por duas vezes quase me afoguei.
A morte por afogamento não é exclusividade de quem desafia o mar. Morre-se afogado em terra firme também. Ou em espaços que não enxergamos como ilha, ilusão geográfica de frágil percepção.
Por isso não penso em todas as ilhas, só nas pequenas e distantes. Nasci numa ilha, de São Vicente, e pouca gente sabe que ela acolhe o principal porto da América do Sul. E alguns míopes certamente diriam que preferem morrer na Ilha de Manhattan.
Não são essas, portanto, que enfeitiçam o espírito quando pensamos numa ilha. Não nos damos conta de que, pequenas, distantes e misteriosas, são apenas, tal qual a ponta do iceberg, promontórios de um único solo que um dia foi invadido por águas alienígenas. E estas estabeleceram níveis que deixaram a descoberto imensas áreas continentais e pequenas pontas, agulhas a cutucar com fantasias e desafios a nós, simples mortais que vencem as ilhas ou se transformam nelas.