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Beatrice de Toledo Dupuy

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NR-1: performance sustentável não nasce da exaustão

No final das contas, as empresas serão lembradas não apenas pelos resultados que entregaram, mas também pela forma como trataram as pessoas que ajudaram a construí-los. 

Nos últimos anos, aprendemos a medir praticamente tudo dentro das organizações. Acompanhamos indicadores financeiros, produtividade, eficiência operacional, emissões de carbono, índices de diversidade e metas de desempenho. Mas ainda temos dificuldade em medir algo fundamental: o impacto que o estilo de liderança exerce sobre o bem-estar das pessoas. 

A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passa a incluir os riscos psicossociais na gestão de saúde e segurança do trabalho, traz essa reflexão para o centro das discussões empresariais. Estresse excessivo, sobrecarga, assédio, pressão constante e outros fatores que podem afetar a saúde dos profissionais passam a integrar a gestão de riscos das empresas. 

A mudança é importante. Mas, na prática, ela apenas formaliza uma realidade que já estava diante de nós há algum tempo. 

As organizações vêm convivendo com níveis crescentes de exaustão, afastamentos por questões emocionais, dificuldades de retenção de talentos e uma demanda cada vez maior por ambientes de trabalho mais saudáveis. Mais do que uma tendência passageira ou uma pauta restrita ao RH, esse é um tema estratégico para a sustentabilidade dos negócios. 

E é aqui que entra o papel das lideranças. 

Nenhuma norma, por mais completa que seja, será capaz de criar ambientes saudáveis sozinha. Políticas são importantes. Processos são necessários. Mas a experiência diária dos profissionais é construída, principalmente, pelas relações que estabelecem com seus gestores e equipes. 

São os líderes que definem prioridades, distribuem demandas, estabelecem metas, conduzem conversas difíceis e influenciam a cultura organizacional por meio de suas atitudes. 

Por isso, a pergunta que as empresas deveriam se fazer não é apenas se estão preparadas para atender aos requisitos da NR-1. A pergunta mais relevante é se suas lideranças estão preparadas para esse novo contexto. 

Em setores como logística, infraestrutura, portos e transportes, essa reflexão é ainda mais necessária. Estamos falando de operações que funcionam 24 horas por dia, sujeitas a pressões operacionais, desafios climáticos, oscilações de mercado e exigências crescentes de clientes e investidores. 

A busca por eficiência faz parte do negócio. O compromisso com resultados também. O problema surge quando a pressão deixa de ser pontual e passa a fazer parte da rotina.

Existe uma diferença importante entre desafiar pessoas e esgotá-las. 

Profissionais gostam de aprender, crescer e assumir responsabilidades. O que gera desgaste é a sensação permanente de urgência, a falta de clareza sobre prioridades, a sobreposição de demandas e a percepção de que nunca se faz o suficiente. 

Durante muito tempo, o ambiente corporativo valorizou comportamentos que hoje merecem uma análise mais cuidadosa. Quantas vezes celebramos jornadas excessivas como demonstração de comprometimento? Quantas vezes confundimos disponibilidade permanente com engajamento? Quantas vezes consideramos normal que profissionais levassem para casa uma carga emocional que deveria ter sido tratada dentro da organização? 

Talvez a maior contribuição da nova NR-1 seja provocar essa revisão. 

Mais do que identificar riscos psicossociais, será necessário desenvolver uma cultura capaz de preveni-los. E isso passa por conversas mais transparentes, expectativas mais claras, reconhecimento adequado, equilíbrio na distribuição das responsabilidades e, principalmente, pela construção de ambientes onde as pessoas possam falar sobre dificuldades sem receio de julgamento. 

Esse conceito tem sido chamado de segurança psicológica. Apesar do nome sofisticado, sua essência é simples: criar condições para que os profissionais possam se expressar, fazer perguntas, admitir erros e propor soluções sem medo de represálias.

Não se trata de reduzir a cobrança por resultados. Trata-se de criar condições para que os resultados sejam alcançados de forma sustentável.

Aliás, as empresas mais bem-sucedidas do mundo já perceberam que desempenho e cuidado não são conceitos opostos. Pelo contrário. Equipes que trabalham em ambientes de confiança tendem a colaborar mais, inovar mais e responder melhor aos desafios. 

Quando as pessoas se sentem respeitadas, ouvidas e valorizadas, o engajamento deixa de ser uma obrigação e passa a ser uma consequência natural. 

Nesse contexto, vejo a atualização da NR-1 não apenas como uma exigência regulatória, mas como uma oportunidade para repensarmos a forma como lideramos. 

A agenda ESG nos ensinou que organizações sustentáveis são aquelas capazes de equilibrar resultados econômicos, responsabilidade ambiental e compromisso social. Talvez tenha chegado o momento de ampliarmos essa visão para incluir, de forma ainda mais clara, a sustentabilidade das relações humanas dentro das empresas. 

Porque cuidar das pessoas não é um tema secundário. Não é uma pauta acessória. E certamente não é uma responsabilidade exclusiva das áreas de Recursos Humanos. 

É uma questão de liderança. 

No final das contas, as empresas serão lembradas não apenas pelos resultados que entregaram, mas também pela forma como trataram as pessoas que ajudaram a construí-los. 

E essa talvez seja a principal mensagem da nova NR-1: ambientes de trabalho seguros não são apenas aqueles que evitam acidentes. São também aqueles que preservam a saúde, a dignidade e o potencial humano de quem faz os negócios acontecerem todos os dias.

Porque performance sustentável não nasce da exaustão. Ela nasce de ambientes onde as pessoas podem entregar o seu melhor sem abrir mão da própria saúde.

Béatrice de Toledo Dupuy e demais integrantes do Conselho ESG dos fóruns Brasil Export escrevem semanalmente, sempre às sextas-feiras, para o BE News.

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