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Bruno Galoti Orlandi

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O agro brasileiro não pode parar na porteira

O Porto de Santos e o sistema portuário brasileiro vivem um importante ciclo de investimentos, mas o próximo passo precisa ser maior do que ampliar um terminal ou resolver um acesso isoladamente. Precisamos pensar em rede.

Há pouco mais de uma década, o Brasil produzia cerca de 186 milhões de toneladas de grãos. Hoje, a estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) para a safra 2025/26 chega a 360,8 milhões. Um crescimento de aproximadamente 93,5% em dez anos, que revela não apenas a força do campo brasileiro, mas também o tamanho do desafio colocado para a infraestrutura logística do país.

O agronegócio é uma das grandes âncoras da economia brasileira. Nossa produtividade dentro da porteira ganhou escala, tecnologia e eficiência. Mas essa competitividade não termina na fazenda. O Brasil pode produzir com eficiência de primeiro mundo, mas não pode aceitar que o custo logístico fora da porteira consuma essa vantagem.

Produzir mais significa armazenar mais, transportar mais e embarcar mais. A riqueza gerada no campo precisa percorrer milhares de quilômetros até chegar aos mercados consumidores e, no caso das exportações, aos portos. É nessa etapa que logística e competitividade passam a caminhar lado a lado.

O Porto de Santos ajuda a dimensionar essa transformação. Em 2015, o complexo movimentou 119,9 milhões de toneladas. Em 2025, fechou com o recorde histórico de 186,4 milhões, crescimento de aproximadamente 55% em uma década. No mesmo período, a produção brasileira de grãos avançou em ritmo ainda maior.

São indicadores diferentes, mas a comparação deixa uma mensagem clara: o campo está crescendo e a infraestrutura não pode simplesmente correr atrás. Ela precisa se antecipar.

Santos é estratégico nessa equação. Em 2025, o complexo respondeu por 29,6% do valor da corrente de comércio exterior brasileiro. Entre os principais produtos estão justamente cargas ligadas ao agronegócio, como soja, açúcar, milho e celulose.

O campo produz. A logística conecta. E é no porto que boa parte dessa produção ganha acesso aos mercados do mundo. Por isso, discutir o futuro de Santos é também discutir o futuro da economia brasileira. O desafio, porém, não está apenas dentro da poligonal portuária. Está nos quilômetros que antecedem o cais.

As ferrovias são fundamentais para transportar grandes volumes por longas distâncias, especialmente grãos e açúcar. As rodovias continuam indispensáveis para garantir capilaridade e fazer a ligação entre propriedades, terminais e ferrovias. E a cabotagem ainda é um modal subutilizado, com potencial para conectar diferentes regiões brasileiras, aliviar a pressão sobre as estradas e tornar a matriz logística mais eficiente.

Quando esses modais não funcionam de maneira integrada, o problema aparece em toda a cadeia. O Porto de Santos já registra uma média de 8 mil caminhões por dia, volume que se intensifica ainda mais durante os meses de pico da safra agrícola. Por isso, infraestrutura não pode ser tratada como uma agenda setorial. É uma política de competitividade e de segurança econômica nacional.

Essa discussão ganha ainda mais relevância quando olhamos para 2035. O estudo Santos 10+, apresentado neste ano pelo Sindicato dos Operadores Portuários do Estado de São Paulo, projeta que a movimentação do complexo santista possa se aproximar de 300 milhões de toneladas e alerta para a necessidade de investimentos estruturantes nos acessos terrestres e aquaviários.

A projeção deveria provocar uma pergunta simples: estaremos prontos para movimentar o Brasil que estamos produzindo hoje?

O Brasil não pode correr o risco de aumentar sua produção e encontrar, fora da porteira, uma infraestrutura incapaz de acompanhar esse crescimento. Competitividade não depende apenas de produzir mais. Depende também de transportar melhor, reduzir custos e garantir previsibilidade.

O Porto de Santos e o sistema portuário brasileiro vivem um importante ciclo de investimentos, mas o próximo passo precisa ser maior do que ampliar um terminal ou resolver um acesso isoladamente. Precisamos pensar em rede.

Campo, armazenagem, ferrovias, rodovias, hidrovias, cabotagem, acessos portuários e terminais precisam crescer de forma coordenada. É essa integração que permitirá transformar o aumento da produção brasileira em mais competitividade, mais comércio exterior e mais desenvolvimento.

O agro já mostrou que consegue crescer. Agora, o desafio é fazer a infraestrutura crescer na mesma direção.

Bruno Galoti Orlandi escreve quinzenalmente para o BE News, com seus textos publicados às segundas-feiras.

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