O anúncio da CBPM na China e o desafio brasileiro
A Companhia Baiana de Pesquisa Mineral (CBPM) apresentou na Conferência de Mineração da China, em Tianjin, dados que despertaram o interesse de representantes de algumas das maiores mineradoras do mundo: áreas descobertas em novembro de 2023, na Bahia, revelam teores de térbio e disprósio até três vezes superiores à média mundial. Os dois elementos são magnéticos raros, estratégicos para motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, sistemas de propulsão de drones militares e equipamentos de ressonância magnética. Quem controla o suprimento de térbio e disprósio tem posição de relevância nas cadeias de transição energética das próximas décadas. E a China, que hoje processa mais de 90% das terras raras mundiais, entende isso melhor do que qualquer outro país. O fato de que os participantes chineses reagiram ao ouvir os números da CBPM, como descreveu o presidente da companhia, Henrique Carballal, não é oratória diplomática: é a reação de quem reconhece dados geológicos que alteram o mapa global de um recurso estratégico.
O contexto importa. O Brasil aprovou, na semana passada, a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. E a descoberta baiana de térbio e disprósio com teores excepcionais é exatamente o tipo de dado que a política precisa incorporar como prioridade. O desafio não é ter os minerais. O Brasil frequentemente os tem. O desafio é transformar a descoberta geológica em cadeia produtiva que agrega valor no País, em vez de exportar o minério bruto para que outros capturem o valor do processamento e da manufatura. O prazo médio de 17 anos entre descoberta e faturamento de um projeto mineral brasileiro, identificado pelo Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), é o obstáculo que a qualidade técnica da apresentação da CBPM em Tianjin não encurta por si só.
Térbio e disprósio são elementos com especificidade técnica que os distingue das terras raras mais comuns: são os que tornam os ímãs permanentes funcionais em altas temperaturas, condição indispensável para motores elétricos em veículos que operam sob carga intensa. A demanda global por esses dois elementos cresce em ritmo acelerado conforme a produção de veículos elétricos escala. E a China, que refina praticamente toda a produção mundial, tem demonstrado disposição para usar essa posição como instrumento de política exterior, como fez com restrições às exportações de terras raras processadas em 2023. Um fornecedor alternativo com teores três vezes superiores à média mundial tem, nesse contexto, argumento comercial e geopolítico que vai muito além da competição por preço.
O trabalho da CBPM em Tianjin foi correto e relevante, ao levar dados técnicos de alta qualidade a um ambiente de compradores e investidores globais é exatamente o que uma empresa pública de pesquisa mineral deveria fazer. O que precisa acontecer agora é: a aceleração do licenciamento ambiental das áreas identificadas, sem o qual investidores que mostraram interesse em Tianjin não conseguem avançar para a fase de perfuração e delimitação das reservas; a definição de modelo de parceria entre a CBPM e investidores privados, nacionais ou estrangeiros, que preserve a soberania sobre o recurso e garanta que parte do processamento ocorra no Brasil, não apenas a extração; e a conexão dessa descoberta com a agenda de industrialização da cadeia de minerais críticos que o Governo Federal discutiu na semana passada. Térbio e disprósio baianos podem alimentar fábricas de ímãs permanentes no Brasil, ímãs que hoje são importados da China para equipar os mesmos motores elétricos que o País quer produzir.
A Bahia mostrou o que tem na Conferência de Mineração da China. Os gigantes multibilionários que ouviram a apresentação da CBPM sabem avaliar a qualidade de dados geológicos. O interesse que despertou em Tianjin tem prazo de validade. Outros projetos concorrendo pela atenção e pelo capital dos mesmos investidores não param de surgir. Transformar esse interesse em projeto, o projeto em licença, a licença em operação e a operação em cadeia produtiva com valor agregado no Brasil é o trabalho dos próximos anos. A geologia fez sua parte. Agora é a vez da política e da gestão.