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Opinião

Editorial

O Brasil, os data center e as oportunidades de crescimento

A corrida global por capacidade de processamento de dados, acelerada pelo crescimento exponencial da inteligência artificial, acaba impulsionando grandes investimentos em infraestrutura. São medidas necessárias para a operação de data centers de escala industrial, que consomem de 100 a centenas de megawatts e demandam energia confiável, conectividade de alta velocidade e segurança física e cibernética. São unidades que estão sendo instaladas com urgência em países que reúnem as condições certas. O estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV) apresentado esta semana demonstra que um único empreendimento desses de 100 MW pode adicionar R$ 1,5 bilhão ao PIB brasileiro e gerar 12.560 empregos diretos e indiretos. O Brasil tem vantagens estruturais reais para atrair esses investimentos. O que ainda falta — e o que o estudo identifica com honestidade — é a decisão política de transformar essas vantagens em política pública integrada.

As vantagens nacionais são genuínas. O Brasil tem a mais limpa das grandes matrizes elétricas do mundo, com mais de 80% de geração renovável, ativo estratégico num setor que responde globalmente por cerca de 2% do consumo de eletricidade e que está sob crescente pressão de corporações com metas de descarbonização. Tem posição geográfica que o coloca como ponto natural de conexão entre América do Sul, América do Norte, Europa e África por cabos submarinos de fibra óptica. Tem custos de construção civil competitivos em relação aos hubs digitais estabelecidos nos Estados Unidos, na Europa e em Singapura. E tem um mercado interno de mais de 200 milhões de pessoas com consumo digital crescente, o que garante demanda local para complementar operações orientadas à exportação de serviços de processamento.

O problema está nas condições de contorno. Data centers de grande escala consomem energia de forma intensiva e contínua. Um total de 100 MW é o equivalente ao consumo de uma cidade de médio porte, operando ininterruptamente. A energia limpa do Brasil existe; a questão é se a rede de transmissão consegue entregá-la com confiabilidade e a preços competitivos nos locais onde os investidores querem instalar empreendimentos. O gargalo brasileiro não está na geração, mas na transmissão. Um data center que sofre interrupções de fornecimento ou paga tarifas elevadas por congestionamento de rede perde sua vantagem competitiva, independentemente de quão limpa seja a energia que o alimenta.

A questão da mão de obra é igualmente crítica e menos discutida. O estudo da FGV estima 12.560 empregos por empreendimento. Mas 85% são temporários, concentrados na construção. Os 15% permanentes correspondem a funções de engenharia de sistemas, segurança cibernética e operação técnica especializada, exatamente as carreiras em que o Brasil tem déficit estrutural de formação. Atrair um data center de 100 MW e não ter técnicos qualificados para operá-lo é uma variante digital do problema identificado ao tratar da escassez de oficiais da Marinha Mercante para os navios do Programa Mar Aberto: a infraestrutura física avança; o capital humano não acompanha.

O BE News entende que o Brasil precisa de uma estratégia de hub digital que integre quatro agendas que hoje correm em paralelo sem coordenação suficiente: a agenda energética, que é o fornecimento confiável para grandes consumidores, com prioridade na expansão da rede de transmissão para regiões com geração renovável abundante; a agenda de conectividade, com a ampliação dos cabos submarinos e dos pontos de troca de tráfego (IXPs) que posicionam o Brasil como hub de routing regional; a agenda de formação, com programas articulados entre universidades, institutos tecnológicos e empresas em engenharia de sistemas, computação em nuvem, segurança cibernética e inteligência artificial, e a agenda regulatória, demandando um marco legal que dê previsibilidade fiscal e jurídica por vinte ou trinta anos a investidores que precisam dessa certeza antes de comprometer bilhões.

O Porto do Pecém já anunciou projeto de data center abastecido por energia renovável, iniciativa que ilustra como portos e zonas industriais com acesso a energia limpa e fibra óptica tornam-se locais naturais para essa infraestrutura. O Brasil tem, nas regiões costeiras do Nordeste, uma combinação que nenhum outro país da América Latina consegue reunir: geração eólica e solar abundante, cabos submarinos de conexão com Europa e Estados Unidos, terreno disponível e custos competitivos. Transformar essa combinação em hub digital de referência global não é ambição desproporcionada. É, na era da inteligência artificial, exatamente o tipo de aposta que os países que chegarem primeiro sustentarão por décadas. A janela está aberta. O servidor está esperando energia.

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