O Brasil que ninguém mede
Deixo uma mensagem não apenas para ela, mas para todos os filhos que começam a assumir responsabilidades nas organizações que ajudamos a construir. Recebam o mundo com curiosidade. Questionem práticas estabelecidas. Aprendam rapidamente. Mas não desprezem quem veio antes.
Na próxima semana, nossa filha, Camilla, assumirá seu primeiro cargo de liderança. Coincidentemente, em uma grande empresa dedicada à criação de conteúdo e soluções de aprendizagem corporativa.
Como pai, senti o orgulho que acompanha esses marcos silenciosos da vida. Levamos anos ensinando os filhos a atravessar a rua e, de repente, percebemos que estão atravessando o mundo sozinhos.
Mas o orgulho veio acompanhado de uma pergunta: O que estamos deixando para eles além dos ativos que construímos?
Refiro-me aos ativos invisíveis: julgamento, repertório, lições aprendidas em crises, negociações, erros e acertos. Aquilo que não aparece nos manuais.
Ao longo da minha trajetória na indústria, na gestão de pessoas, na operação portuária, na sala de aula e apoiando a alta gestão empresarial, observei o mesmo fenômeno repetir-se inúmeras vezes.
Uma liderança se aposenta, muda de empresa, deixa sua função.
E o conhecimento acumulado ao longo de décadas desaparece junto com quem o construiu.
Não por egoísmo. Mas porque ainda falhamos em transformar vivência em patrimônio coletivo.
O Brasil mede quase tudo: toneladas movimentadas, quilômetros pavimentados, produtividade, inflação, arrecadação, investimentos e indicadores operacionais cada vez mais sofisticados. E devemos medir.
Eficiência e eficácia são obrigações permanentes de qualquer organização séria.
O que não medimos é o custo do conhecimento que se perde.
Não medimos o julgamento que deixa de ser transmitido. O erro que volta a acontecer. A solução que precisa ser reinventada. O tempo consumido reaprendendo aquilo que alguém já havia descoberto antes.
Não há desperdício mais caro. Desperdiçar experiência compromete o futuro.
Nos setores de infraestrutura, logística, energia, mineração, portos e aeroportos, isso é ainda mais evidente. São atividades intensivas em conhecimento prático, relações institucionais e decisões tomadas sob pressão.
Quando uma geração parte levando consigo tudo o que aprendeu, o sistema inteiro recomeça alguns passos atrás. “Volte duas casas”.
A boa notícia é que nunca tivemos tantas gerações convivendo simultaneamente nas organizações.
Os jovens chegam trazendo velocidade, familiaridade tecnológica e perguntas que desafiam velhas certezas.
Os mais experientes oferecendo contexto, discernimento e serenidade construída em decisões difíceis.
O futuro não pertence a uma geração. Pertence à capacidade de fazê-las conversar.
O problema nunca foi a diferença entre jovens e veteranos. O problema é a ausência de pontes entre eles.
Ao pensar em Camilla iniciando sua trajetória como líder, percebo que ela representa muito mais do que minha filha. Ela é como os filhos de muitos dos que leem esta coluna.
Simboliza uma geração inteira que chega preparada para enfrentar desafios inéditos, mas que precisa receber de nós algo que nenhuma tecnologia substitui: contexto.
Por isso, deixo uma mensagem não apenas para ela, mas para todos os filhos que começam a assumir responsabilidades nas organizações que ajudamos a construir.
Recebam o mundo com curiosidade. Questionem práticas estabelecidas. Aprendam rapidamente.
Mas não desprezem quem veio antes.
E a nós, que hoje ocupamos posições de liderança, cabe uma obrigação igualmente importante: não confundamos experiência com propriedade.
Aquilo que aprendemos não nos pertence. Pertence ao futuro. Ensinem. Compartilhem.
Criem espaços onde perguntas possam ser feitas e histórias possam ser contadas.
Porque recursos perdidos podem ser recuperados e estratégias equivocadas podem ser corrigidas. Até resultados ruins podem ser revertidos.
Mas o conhecimento que desaparece sem alcançar a próxima geração leva consigo oportunidades que jamais retornam.
Legado não é o que deixamos para as pessoas. Legado é o que deixamos nas pessoas.
Camilla — e todos os filhos que agora começam a ocupar seus lugares no mundo — herdarão empresas, instituições e tecnologias melhores do que aquelas que encontramos.
A pergunta é simples: eles herdarão também a nossa disposição de compartilhar o que aprendemos para que possam ir além de onde conseguimos chegar?
Esse é o Brasil que precisamos aprender a medir.
Hudson Carvalho é consultor em Estratégia de Gestão de Pessoas, diretor-executivo da BE Academy, diretor regional da Wisdom – Gestão Organizacional (Desenvolvemos Pessoas e Processos) para o ABCD e Baixada Santista (SP) e diretor executivo da Elabore-Online – Pessoas e Resultados. Ele escreve semanalmente para o BE News, com seus artigos sendo publicados às segundas-feiras.