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O cérebro e a menopausa: o talento que as empresas ainda não aprenderam a proteger

Talvez a pergunta que os conselhos de administração e as lideranças devam fazer não seja “como lidar com a menopausa?”, mas sim: quantos talentos estamos perdendo por ainda não compreendermos o cérebro feminino?

Durante décadas,  o mundo corporativo discutiu sobre produtividade, inovação, diversidade e retenção de talentos.  E nós, mulheres, éramos ouvintes e atuantes, até que começamos a pedir nosso lugar de fala!

E caminhamos muito bem. Digo isso com propriedade, pois vivi na pele a angústia de ter que saber como, quando e onde me posicionar e tendo como companheiro o medo de ser estereotipada, pendurado em meu pescoço…

No entanto, ao longo dos anos, frequentando fóruns, feiras, simpósios, summits e outros eventos corporativos, tenho percebido que um dos fatores que está impactando a carreira de milhões de profissionais permanece praticamente invisível e sem voz dentro das organizações: a menopausa.

Parece que só acontecerá  do lado de fora… Que nunca abrirá a porta da frente de nossa casa, que nunca se fará presente dentro das empresas.

E isso acontece porque quando ouvimos a palavra “menopausa”, ainda é comum associá-la apenas às ondas de calor ou às alterações do ciclo menstrual. A ciência, porém, mostra que essa visão é limitada. O cérebro feminino é um dos órgãos mais sensíveis às mudanças hormonais dessa fase da vida.

O estrogênio não atua apenas no sistema reprodutivo. Ele participa diretamente de funções cerebrais como memória, atenção, linguagem, velocidade de processamento, regulação emocional e qualidade do sono. Durante a transição menopausal, o cérebro passa por um processo de adaptação que pode se manifestar por dificuldade de concentração, lapsos de memória, fadiga mental, ansiedade e perda temporária da confiança profissional.

Quantas mulheres já saíram de uma reunião preocupadas por não encontrarem a palavra certa? Quantas passaram a acreditar que estavam perdendo sua capacidade intelectual justamente quando acumulavam décadas de experiência?

Eu faço parte desse grupo!

A boa notícia é que a ciência responde com clareza: na maioria dos casos, não se trata de perda de inteligência nem de declínio cognitivo permanente. Trata-se de um cérebro em reorganização.

Pesquisas em neuroimagem demonstram que, durante essa transição, ocorrem alterações temporárias no metabolismo e na atividade de regiões relacionadas à memória e às funções executivas. À medida que o cérebro se adapta ao novo ambiente hormonal, muitas dessas alterações tendem a estabilizar.

Esse conhecimento muda completamente a forma como devemos olhar para a menopausa no ambiente corporativo.

Enquanto as empresas investem fortemente na atração de talentos, muitas acabam perdendo profissionais altamente qualificadas justamente no momento em que atingem sua maior maturidade técnica, capacidade de decisão e visão estratégica. Não por falta de competência, mas porque enfrentam uma fase biológica pouco compreendida e frequentemente cercada por estigma.

Ignorar essa realidade tem um custo elevado. Presenteísmo, queda da produtividade, afastamentos, desistência de promoções e até pedidos de desligamento podem estar relacionados a sintomas que poderiam ser acolhidos e gerenciados com informação e políticas adequadas.

Falar sobre menopausa no trabalho não significa criar privilégios. Significa reconhecer uma condição biológica que afeta uma parcela significativa da força de trabalho, e que merece a mesma seriedade dedicada a outros temas de saúde ocupacional.

O futuro das organizações passa pela longevidade profissional. Vivemos mais, trabalhamos por mais tempo e ocupamos posições de liderança em fases da vida antes pouco representadas nas empresas. Preparar gestores para compreender essa realidade não é apenas uma questão de inclusão; é uma estratégia de retenção de conhecimento, experiência e capital intelectual.

A menopausa não diminui o potencial de uma mulher. O que limita esse potencial é a falta de informação, o preconceito e o silêncio.

As empresas que compreenderem essa transformação estarão mais preparadas para preservar aquilo que possuem de mais valioso: pessoas experientes, capazes de liderar, inovar e transformar organizações.

Talvez a pergunta que os conselhos de administração e as lideranças devam fazer não seja “como lidar com a menopausa?”, mas sim: quantos talentos estamos perdendo por ainda não compreendermos o cérebro feminino?

Mulheres, conto com vocês nessa nova empreitada!

Afinal viveremos nela até o final de nossas jornadas.

Elck Fogagnoli escreve quinzenalmente para o BE News, com seus textos sendo publicados às sextas-feiras.

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