terça-feira, 06 de outubro de 2026
Dolar Com.
Euro Com.
Libra Com.
Yuan Com.
Opinião

Artigos

Luiz Dias Guimarães

Clique para ver mais

Articulista

O céu não é o limite

Somos seres livres como o sol, o vento, nossos sonhos. A dimensão de cada um é determinada pelo livre arbítrio, desde que nuvens não bloqueiem a luz, paredes não barrem o vento, nossa saúde permita. E alguém não nos impeça de sonhar. Por mais paradoxal que seja, há um limite para a liberdade. E é isso que faz da existência complexa aventura.

Mark Dickey, norte-americano de 40 anos, fez do desafio o sentido de sua vida explorando grutas e cavernas. Agora está a mil metros abaixo do solo tentando se salvar. Espeleólogo experiente, partiu com outros para a gruta de Morca, nas montanhas Taurus, sul da Turquia, de mais de 1.200 metros de profundidade. Só não esperava sofrer uma hemorragia estomacal.

Os espeleólogos são gente unida. Mais de 100 médicos, paramédicos e colegas de vários países correm nestes dias em restabelecer as condições para que Mark possa voltar à superfície passando pelos estreitos caminhos por onde não passaria sua maca.

Cada um desafia os limites à sua maneira. Alguns se impondo doses maciças de adrenalina ao saltar de penhascos ou praticar malabarismos que testam músculos e a sorte. A liberdade, porém, se estreita no coletivo, ser gregário que é o homem. É a velha cantilena ‘a liberdade de cada um termina onde começa a do outro’.

Códigos de conduta determinam os limites. Mas antes fosse assim. A ruptura dessas regras é constante, às vezes perplexa e complexa, quando não sutil, a nos ameaçar. Impressionante que somos seres cada vez mais inteligentes porém menos sábios. E cada geração revela novas sandices.

Que fossem apenas bestiais modas como tatuar todo o corpo ou furar lábios e orelhas para pendurar adereços. Mas não bastasse o flagelo à subsistência que provoca inúmeros e constantes atos de violência, espalham-se pela Europa bandos de ‘pickpockets’, jovens – muitas meninas – cujo aspecto não sugere flagelo, furtando bolsas e carteiras nas estações de trem e metrô.

Pior de tudo é quando a opção individual rouba ao conjunto da espécie. Me assusto quando vejo um indivíduo – ou um grupo – determinado a seus próprios e particulares objetivos, pondo em risco o mundo. A ambição desde tempos primitivos persiste e cresce ainda mais diante dos apelos de consumo e exibição.

Mesmo as convicções ideológicas, que fazem parte de como enxergamos a vida coletiva, deveriam se submeter à integridade do existir de cada um. Daí conviver.

Contribuir para que se entenda como melhorar a vida não pode ser impor, explícita ou sutilmente, uma opinião, vontade e ainda mais um interesse. Muitas vezes vemos tristes exemplos na gestão pública, onde mudanças enterram projetos e surgem outros. O mundo poderia se aprimorar mais celeremente, mas a política vira palco de abominável conflito de interesses, de mais diferentes matizes.

Há nessas mudanças formas de se interpretar o que é melhor. Mas outras vezes apenas meras estratégias de controle. Quando não simplesmente a afirmação de interesse particular, seja por convicção ou objetivos espúrios.

Num tempo em que se vive mais na média graças aos avanços da medicina, ainda se morre tanto de fome e de guerra. Não sei até que ponto esses conflitos entre países não são reflexo de obstinado interesse individual de um líder ou de um grupo econômico.

Pois é, a liberdade não depende apenas do sol, do vento e dos sonhos de cada um. Depende do bem ou do mal que provocamos aos outros. E então descobrimos que de fato cada um é livre para definir seu próprio desafio dentro de uma caverna. Mas decididamente o céu não é o limite quando esse céu é o de todos.

Compartilhe:
TAGS liberdade livre arbítrio paradoxal

Leia também