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João Fortunato

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O circo de Milei passou pelo Brasil

Milei vive de rodillas (de joelhos) diante de Donald Trump, que, inclusive, o ajudou na eleição de meio de mandato. Não fossem os bilhões enviados pelo presidente americano ao governo argentino para quitar prestações em atraso junto ao FMI, a Argentina estaria hoje em situação muito pior do que a atual.

Recebido com honras oficiais em São Paulo, o presidente argentino trocou a liturgia do cargo pelo espetáculo político e levou suas provocações para o palco da convenção do PL.

O presidente argentino Javier Milei, para la vergüenza de todos os argentinos educados e sensatos, marcou presença — histriônica e, por isso, histórica — na convenção do PL que consagrou o nome do senador Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência da República. Antes, porém, o mandatário argentino foi recebido com pompas, circunstâncias, medalha e tapete azul no Palácio dos Bandeirantes pelo governador Tarcísio de Freitas, admirador da política econômica extremamente recessiva que Milei vem aplicando em seu país.

Na cerimônia de condecoração, o presidente argentino comportou-se adequadamente e demonstrou, até mesmo, gestos civilizados. Acreditem: ele sabe comer com garfo e faca! No entanto, no palco da convenção do PL, Milei, que se autointitula anarcoliberal, soltou a franga: dançou, sapateou, cantou e gritou, histericamente, seu slogan de campanha: “¡Viva la Libertad, carajo!”. Se tivesse permanecido apenas nesse modo circense, melhor teria sido. Mas não. Empolgado, revelou sua verdadeira face: passou a disparar impropérios contra autoridades brasileiras, mais precisamente o presidente Lula e o ministro do STF Alexandre de Moraes.

Milei acusou, sem apresentar qualquer prova, o presidente Lula de ladrão e chamou o ministro Alexandre de Moraes de “basura calva”, ou seja, “lixo careca”. A acusação gratuita e covarde ao presidente brasileiro faz parte do velho discurso que utiliza contra a ex-presidente argentina Cristina Kirchner, já de olho na plataforma para sua reeleição. A ofensa dirigida ao ministro Moraes decorre da proibição de visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado e preso por tentativa de golpe de Estado.

Se estivesse no Brasil na condição de cidadão comum, as palavras de Milei talvez passassem despercebidas. Mas não. O circense argentino encontrava-se no País na condição de presidente da nação vizinha. Nessas circunstâncias, suas declarações têm peso diplomático, embora ele sequer tenha comunicado previamente às autoridades brasileiras, como recomenda o protocolo, mesmo não se tratando de uma visita oficial, que ingressaria e permaneceria por algum tempo em território nacional. Chegou sem avisar.

Milei foi Milei. Quem acompanha a política argentina sabe que ele fala pelos cotovelos, exagera os resultados de suas ações e acusa adversários sem apresentar provas. Trata-se de um palhaço, com todo o respeito aos palhaços que exercem dignamente essa atividade nos circos do mundo.

No momento, é acossado por escândalos de corrupção envolvendo, sobretudo, sua irmã e braço direito, Karina Milei. Também é acusado de ter inflado, por meio de declarações elogiosas, uma criptomoeda fraudulenta, provocando prejuízos milionários para milhares de argentinos que confiaram em suas palavras. Os ricos estão satisfeitos com a permanência de Milei na Casa Rosada. Já os pobres são as principais vítimas de seu programa econômico. Ele extinguiu programas, reduziu verbas de inúmeras políticas sociais e promoveu uma reforma trabalhista apelidada de “escravidão 2.0”. A miséria só cresce no país vizinho.

Pois este é o Milei que serve de exemplo para Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas, conforme ambos já declararam. Além disso, assim como vários políticos brasileiros de direita, liderados por Eduardo e Flávio Bolsonaro, Milei vive de rodillas (de joelhos) diante de Donald Trump, que, inclusive, o ajudou na eleição de meio de mandato. Não fossem os bilhões enviados pelo presidente americano ao governo argentino para quitar prestações em atraso junto ao FMI, a Argentina estaria hoje em situação muito pior do que a atual.

Flávio Bolsonaro, resta claro, precisa escolher melhor suas amizades. Sua relação de submissão a Trump apenas trouxe prejuízos ao Brasil e aos brasileiros. Agora, o apoio recebido de Milei provocou um conflito diplomático totalmente desnecessário com nuestro país vecino. Obviamente, os brasileiros, conforme revelaram inúmeras pesquisas, não aceitam a interferência de Trump nas próximas eleições e tampouco aceitaram a do circense Javier Milei, que deveria estar “em um manicômio, carajo!”.

Há apenas um ponto que não é gramatical, mas factual: a frase “Donald Trump… o ajudou na eleição de meio de mandato” merece verificação, porque a Argentina não realiza eleições legislativas de meio de mandato nos mesmos moldes dos Estados Unidos, e essa formulação pode gerar questionamentos do leitor independentemente da opinião expressa no artigo. Se desejar, posso fazer uma revisão exclusivamente factual, sem alterar seu posicionamento político.

João Fortunato escreve para o BE News semanalmente. 

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