O começo do fim de uma odisseia diplomática
A conclusão da votação entre os embaixadores dos 27 estados-membros da União Europeia, ocorrida nessa sexta-feira, dia 9, marca o início do fim de uma odisseia diplomática que se estendeu por um quarto de século. Ao atingir o quórum necessário de 15 nações representando 65% da população do bloco, a aprovação provisória do acordo comercial com o Mercosul retira da paralisia a criação daquela que será a maior zona de livre comércio do planeta. Em um cenário global de fragmentação e protecionismo ascendente, a decisão europeia sinaliza um pragmatismo vital para a sobrevivência das economias abertas, estabelecendo uma conexão definitiva entre cerca de 750 milhões de consumidores nos dois lados do Atlântico.
O tratado, que prevê a eliminação de aproximadamente € 4 bilhões em tarifas sobre exportações europeias, é o mais ambicioso já firmado por Bruxelas em termos de desoneração tributária. Para o Mercosul, a queda de barreiras sobre bens de capital e insumos químicos representa um choque de produtividade necessário; para a Europa, o acesso facilitado a um mercado que ainda impõe alíquotas de até 35% sobre peças automotivas e produtos lácteos é uma vitória estratégica em meio às incertezas das relações comerciais com os Estados Unidos.
Apesar da euforia diplomática, o caminho até a implementação plena permanece acidentado. É imperativo reconhecer os desafios a serem enfrentados, especialmente as críticas de países como França e Polônia. A resistência francesa, ancorada em um setor agropecuário politicamente influente, utiliza o temor da concorrência dos produtos sul-americanos para erguer barreiras sob o pretexto de salvaguardas sanitárias e ambientais. Embora a Comissão Europeia tenha incluído mecanismos de proteção e fundos de crise para acalmar os agricultores locais, a oposição no Parlamento Europeu promete ser feroz, alimentada por protestos que já paralisam capitais no Velho Continente.
Nesse contexto, é estratégico que a diplomacia brasileira e a dos demais países do Mercosul intensifiquem seus esforços para convencer os países críticos da importância do acordo e de seus efeitos. A narrativa sul-americana precisa evoluir para além da simples oferta de commodities; é necessário demonstrar, com dados e compromissos vinculantes, que a integração reforçará os padrões de sustentabilidade e que a abertura de mercado será benéfica para a segurança alimentar e a estabilidade de preços em ambos os blocos.
A mudança de postura da Itália, que migrou da oposição para o apoio ao projeto, serve como evidência de que a negociação técnica e política pode desarmar resistências que pareciam intransponíveis. O Mercosul deve utilizar este exemplo para dialogar com as bancadas parlamentares europeias, destacando que o acordo não é uma ameaça, mas um escudo contra o isolacionismo. O sucesso da ratificação dependerá da capacidade de os negociadores sul-americanos comprovarem que o pacto oferece salvaguardas mútuas e que o fortalecimento dos controles ambientais é um compromisso de Estado, e não apenas de ocasião.
A assinatura prevista para a próxima semana entre Ursula von der Leyen e as lideranças do Mercosul é apenas o primeiro degrau de uma escadaria política. O destino de € 111 bilhões em trocas comerciais anuais e o futuro da integração econômica transatlântica estão agora nas mãos de uma diplomacia que precisa ser tão ágil quanto persistente. O acordo com a União Europeia é o passaporte do Mercosul para a modernidade econômica, mas a validação final desse documento exigirá um esforço de persuasão sem precedentes nas capitais europeias.