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Adilson Luiz Gonçalves

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O desafio da industrialização da Baixada Santista

Santos já teve indústrias açucareira, têxtil, de doces e pescados. Lembro do apito de meio-dia da Açucareira Pérola, dos doces de banana de “A Leoneza” e da malcheirosa unidade de defumação de pescado da Alcyon.

Creio que poucos tenham atentado para o fato da Região Metropolitana da Baixada Santista ter sido pioneira em industrialização, já que tivemos alguns dos primeiros engenhos de açúcar do Brasil colônia, no século XVI.

Com o tempo, a vocação portuária ganhou a notoriedade e a pujança que mantém até hoje. No entanto, não se pode dizer o mesmo da produção industrial. A industrialização do Estado de São Paulo passou por aqui, junto com milhares de imigrantes que trouxeram consigo conhecimentos técnicos e espírito empreendedor.

A pujança do porto e sua relevância para o país exigiram investimentos em acessos terrestres e aquaviários para ampliar os fluxos de exportação e importação, que também tiveram efeitos regionais.

No âmbito industrial, consta que a inauguração da RPBC, em 1955, e da Cosipa, em 1963, foram peças-chave para a consolidação do Parque Industrial de Cubatão. Porém, a produção industrial já existia nesse município desde o início do século XX, quando ainda era parte de Santos.

Destaque na indústria petroquímica, siderúrgica e de fertilizantes em escala nacional, muito antes de se falar em Economia Circular, uma indústria de Cubatão produzia cimento a base de escória de alto-forno, vinda da Cosipa.

Santos já teve indústrias açucareira, têxtil, de doces e pescados. Lembro do apito de meio-dia da Açucareira Pérola, dos doces de banana de “A Leoneza” e da malcheirosa unidade de defumação de pescado da Alcyon.

Guarujá sempre teve tradição na indústria naval, com seus estaleiros, e o Instituto Dona Escolástica Rosa, em Santos, tinha um curso de carpintaria naval.

São Vicente sediou uma indústria de vidros por 86 anos.

Ainda hoje, a produção industrial de Cubatão corresponde a mais de 50% do valor adicionado total do município, enquanto que nos demais municípios da Região Metropolitana da Baixada Santista, esse valor não ultrapassa 15%, com indústrias majoritariamente voltadas à produção local, como construção civil, turismo e panificação.

O Secretário Estadual de Desenvolvimento, Jorge Lima, frequentemente afirma que não faz sentido nossa região ter tão pouca representatividade no PIB de São Paulo. Em 2024, ela foi de apenas 2,9%.

Nosso complexo portuário é o principal do país, mas exporta majoritariamente cargas do agronegócio, basicamente commodities de baixo valor agregado, embora produzidas com alta tecnologia, graças ao empenho e competência de pesquisadores do Embrapa.

É importante lembrar que a operação de granéis sólidos é afetada por fatores climáticos, e que a tendência é de aumento da frequência e intensidade de eventos extremos.

As operações com contêineres, cargas de projeto e veículos são mais rápidas e menos suscetíveis às condições climáticas. Porém, assim como os produtos do agronegócio, a maioria dos produtos industrializados vem da hinterlândia do porto, com seu valor de mercado sofrendo os efeitos do “Custo Brasil”, que seriam reduzidos se houvesse produção ou montagem próxima dos complexos portuários.

Os principais portos do mundo possuem parques industriais em seu entorno e exportam produtos de alta tecnologia. Parte desse processo inclui formação acadêmica e técnica de alto nível, além de maciços investimentos em PD&I.

A China, entendendo que o desenvolvimento econômico contribuiria para a mitigação de problemas sociais muito mais do que medidas opressivas características de governos totalitários, há quatro décadas resolveu investir maciçamente na formação de técnicos e cientistas, inclusive em universidades ocidentais. Com isso, num relativamente curto espaço de tempo, passou da subserviência à URSS à engenharia reversa e à atração de empresas multinacionais vinculada à transferência de tecnologia. Essa visão estratégica teve efeitos extremamente benéficos para o país, que, por vários anos, apresentou um crescimento de PIB de dois dígitos.

Outro fator importante para esse resultado foi a criação de mais de 2,5 mil Zonas Econômicas Especiais, com regimes que favorecem a retenção de inteligências, produção de conhecimentos e vantagens concorrenciais. Com isso, a China passou a ter sete portos entre os dez primeiros do mundo em operação de contêineres! Em 2023, a China produziu o dobro de patentes que os EUA!

Nesse mesmo ano, a produção industrial chinesa representou 31,8% do valor adicionado total global, superando a soma de países como EUA, Japão, Alemanha e Índia, juntos.

A Coreia do Sul e Taiwan, com regimes bem diferentes do chinês, são outros exemplos notáveis de desenvolvimento baseado em educação e PD&I como estratégias de estado.

Enquanto isso, a participação do Brasil nas exportações mundiais de produtos industrializados oscila por volta de 1%, com menção honrosa para a indústria aeronáutica.

Desde 2022, os governos federal e estadual defendem a reindustrialização e neoindustrialização do país, mas os resultados ainda não são sensíveis, muito em função da burocracia estatal, de restrições legais e da instabilidade jurídica.

Apesar disso, o IPT recentemente criou uma planta para aproveitamento industrial de terras raras. No sul, há uma fábrica de grafeno. A Braskem produziu um bioplástico que pode ser utilizado em impressoras 3D em gravidade zero. A UCSGraphene produz grafeno em escala industrial. A EMBRAER é a terceira principal construtora de aeronaves do mundo. Também merecem destaque empresas nacionais no setor de tecnologia de ponta, sobretudo nas áreas militares.

Infelizmente, a capacidade de superação e a inteligência dos brasileiros não têm sido suficientemente valorizadas, o que tem resultado no êxodo de profissionais altamente qualificados para o exterior.

A Região Metropolitana da Baixada Santista tem áreas consideradas adequadas à implantação de plataformas logísticas e industriais próximas ao complexo portuário local. O Governo Federal dispõe desses estudos desde o início da década de 2010.

A exemplo da China e de outros países que também adotaram o regime de Zonas Econômicas Especiais (existem mais de 7,5 mil no mundo), o Brasil também dispõe de regimes tributários e aduaneiros (drawback e Zonas de Processamento de Exportação, por exemplo) que potencializam competitividade e diversificação de nossa carteira de exportações, agregando-lhe valor e tecnologia, com baixo impacto ambiental.

Esse potencial também favorece investimentos em PD&I, aproveitando o potencial de universidades e escolas técnicas existentes na região.

No entanto, como em todos os portos marítimos, estuarinos, lacustres e fluviais, os licenciamentos ambientais têm sido complexos e demorados.

Além disso, vivemos um momento de tensão e transição, em que, além de externalidades, vários dispositivos legais que afetam diretamente o desenvolvimento nacional estão em fase de revisão.

Em suma, é preciso que o cenário atual evolua para condições mais propícias ao efetivo desenvolvimento sustentado da região, estado e país, gerando empregos, investindo em educação de boa qualidade, dinamizando a economia e reduzindo a demanda por programas sociais.

Mas, mesmo agora, o desafio, que vale tanto para a Região Metropolitana da Baixada Santista como para o Brasil, é: como atrair empreendimentos e investimentos em produção industrial, aproveitando o trunfo logístico que é a proximidade de complexos portuários?

Isso inclui definir no que podemos ser competitivos e inovadores no mercado internacional, para deixarmos de ser majoritariamente exportadores de commodities de baixo valor agregado e importadores de produtos industrializados feitos com elas, pagando preços dezenas de vezes superiores.

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