terça-feira, 06 de outubro de 2026
Dolar Com.
Euro Com.
Libra Com.
Yuan Com.
Opinião

Editorial

O desafio das exportações de carne bovina

O Brasil exportou 45 mil toneladas de carne bovina nos três primeiros dias úteis de julho, ao preço médio de US$ 6.383 por tonelada, o segundo maior já registrado para o mês. São números que confirmam o que o setor pecuário vem demonstrando há anos: quando o produto chega ao porto, o mundo quer comprar. O problema é o que acontece entre o frigorífico e o navio e, cada vez mais, o que acontece do outro lado do oceano quando compradores europeus, americanos e do Oriente Médio exigem garantias que a logística brasileira ainda não entrega de forma sistemática.

A exportação de carne bovina in natura é uma operação logística de alta complexidade e tolerância zero a falhas. O produto requer uma cadeia de frio ininterrupta desde o abate até a entrega no destino final, pois qualquer quebra na temperatura compromete a qualidade sanitária, invalida certificações e pode resultar em recusa no porto de destino. Além disso, nos principais portos exportadores de carne do Brasil — Santos (SP), Paranaguá (PR), Itajaí (SC), Rio Grande (RS) e Vitória (ES) —, a capacidade das câmaras frigoríficas locais é insuficiente para absorver os picos de exportação sem pressionar os prazos de embarque. Quando o ritmo acelera, como neste mês, com demanda aquecida após o encerramento da cota chinesa, essa insuficiência se torna um gargalo real, com custo mensurável em dias de espera e risco sanitário que o exportador gerencia com margem estreita.

A rastreabilidade é o segundo gargalo logístico que a demanda internacional está tornando progressivamente crítico. A União Europeia, mercado que paga os maiores preços unitários pela carne brasileira e que o acordo Mercosul-UE tornará ainda mais acessível nos próximos anos, exige rastreabilidade individual de bovinos desde o nascimento até o abate, com documentação digital integrada ao sistema de inspeção veterinária. O Brasil tem avanços no Sistema Brasileiro de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos (Sisbov), mas a cobertura ainda é parcial e a integração entre o sistema federal, os serviços estaduais de inspeção e os sistemas proprietários dos frigoríficos é fragmentada. Um exportador que não consegue provar, com documentação digital auditável, a origem e o histórico sanitário de cada animal abatido não acessa os contratos de maior valor no mercado europeu, independentemente de quão competitivo seja seu preço.

Os Estados Unidos, cuja ameaça tarifária sobre produtos brasileiros tem dominado a agenda diplomática desta semana, mas que excluiu a carne bovina das sobretaxas propostas, também avançam em exigências de rastreabilidade e certificação de bem-estar animal – que o Brasil ainda não incorporou de forma padronizada em toda sua cadeia de abate. Essa exclusão das tarifas não é altruísmo: é reconhecimento de que os americanos dependem do fornecimento brasileiro para parte de seus contratos de processamento industrial. Mas essa dependência tem prazo. Se o Brasil não desenvolver a infraestrutura de rastreabilidade que os importadores americanos exigirão progressivamente, Austrália, Argentina e Uruguai estarão prontos para substituí-lo nos segmentos de maior valor agregado.

O BE News defende que a agenda logística da carne bovina precisa ser tratada com a mesma prioridade que o Governo Federal dedica à logística de grãos, minérios e contêineres. Isso significa investimento em câmaras frigoríficas portuárias com capacidade compatível com os picos de exportação, integração digital do sistema de rastreabilidade bovina em plataforma nacional única, com acesso certificado para importadores, e infraestrutura de inspeção veterinária nos portos que permita agilizar o despacho sem comprometer os padrões sanitários. O Plano Safra 2026/2027 financia a produção, mas falta um plano logístico equivalente que garanta que a carne produzida chegue ao comprador certo, no prazo certo, com a documentação que ele exige.

O Brasil é o maior exportador mundial de carne bovina. Mas a posição de liderança num mercado cada vez mais exigente em rastreabilidade, sustentabilidade e garantias sanitárias digitais não se mantém apenas com escala de produção. Mantém-se, sim, com infraestrutura logística que preserve a cadeia de frios do frigorífico ao navio, com sistemas de informação que provem a origem de cada animal e, ainda, com portos que processem contêineres refrigerados com a eficiência que o produto perecível exige. O mundo quer a carne brasileira. Cabe ao Brasil garantir que ela chegue em condições de ser aceita e ao preço que merece.

Compartilhe:
TAGS

Leia também