O exemplo “de cima”
Uma sociedade cheia de leis não é necessariamente uma sociedade justa. Bastariam poucas, se as pessoas simplesmente respeitassem regras básicas de convivência.
Dizem que “o exemplo vem de cima” ou que “vale mais do que mil palavras”, mas também falam que “nem tudo o que se diz se faz” e que “as aparências enganam”.
O fato é que existem muitas pessoas consideradas da “elite” em seus grupos que, apesar do discurso, creem que seus atos estão acima da lei ou do semelhante.
Isso, infelizmente, é cada vez mais comum entre os que escolhem a política como “profissão” ou exercem cargos de poder, eleitos ou não. Mas não podemos esquecer que somos nós que os elegemos e eles elegem outros em nosso nome. Com isso, também estamos dando um mau exemplo.
Assim, todos têm parcelas variáveis de participação, consciente ou inconsciente, nesse contexto. Qualquer que seja a condição social, crença, ideologia ou profissão, nossos atos, efetivos ou falhos, são exemplos!
O poder importa responsabilidades que alguns preferem ignorar, por conveniência, formação ou desvio de caráter, optando por tirar proveito daquilo que lhes interessa, desprezando o direito de outrem, inclusive o coletivo.
O que dizer de quem critica e despreza um sem-teto que urina e defeca na rua, mas leva seu “totó” para fazer o mesmo na porta dos outros, sem coletar a “caca”, clamando que a rua é pública? Como definir quem leva seus “pets” a locais públicos fechados, deixando-os latir continuamente e, quando alguém demonstra incômodo, retruca que é seu direito e quem se incomoda é insensível?
Se for verdade que donos e cães são parecidos, e “quem sai aos seus não degenera”, o que impedirá seus filhos de duas patas de saírem por aí praticando seus vícios, vontades, “tradições” e “direitos”, com a benção e proteção familiar ou da “elite” a que pertencem?
Esses “pequenos” maus exemplos podem parecer insignificantes perante as grandes mazelas da sociedade e das instituições, picuinhas de quem deveria cuidar da própria vida. Porém, essa falta de respeito às leis e aos direitos dos outros pode ser o primeiro passo para outras irregularidades, cada vez mais graves. É o momento em que vivemos, infelizmente e abertamente!
E quanto maior a ascensão de quem age assim, pior, pois, acreditando ser exemplo, na verdade está se considerando superior, exceção, interpretando as regras sempre ao seu favor e, dependendo de seu poder, fazendo leis ou julgando em benefício próprio.
Pode não haver regra sem exceção, mas, quando a exceção negativa se torna paradigma, temos uma sociedade injusta, imoral ou amoral, em que não haverá presídios suficientes para abrigar seus criminosos ou a leniência e a impunidade serão uso e costume!
Uma sociedade cheia de leis não é necessariamente uma sociedade justa.
Bastariam poucas, se as pessoas simplesmente respeitassem regras básicas de convivência.
Nesse sentido, o bom exemplo precisa vir de cima, sim! Mas também deve vir de baixo, como forma de constranger quem abusa do poder, qualquer que seja!
Adilson Luiz Gonçalves escreve semanalmente para o Jornal BE News, com seus artigos publicados tradicionalmente na edição de sábado e domingo e, eventualmente, na de quarta-feira.