O fascínio do mar
Duas vezes no ano a praia portuguesa de Nazaré oferta ondas colossais. E atrai esportistas que ousam montar o cavalo de espumas. São gladiadores nesse coliseu de rochas e horizontes. Alguns até se saem bem, graças à sua habilidade ou à generosidade do mar. Outros morrem, naufragados em seus ideais de vencer a sorte. E pior, às vezes as caudalosas ondas, de tão vorazes, engolem quem tenta salvar aquele que o ímpeto da aventura fez debulhar as brumas.
Vi um post desse desafio que nocauteou o surfista e quem o buscou na perdição da espuma brava. Não sei que fim a eles se deu. Teria que ver o próximo capítulo, o que me nego a fazer, pois não quero monetizar o infortúnio.
Talvez o mar seja o grande desafio da existência. Ou refúgio da dolorosa vida de pés no chão. Há uma simbiose do homem com o mar, origem de tudo. O mar atrai e alimenta sonhos, como a lua e as estrelas.
Que fascínio é esse que fez tantos aventureiros singrarem rumo ao desconhecido? Que atrai surfistas ávidos por vencer as mais inóspitas ondas? Que faz os pescadores lançarem redes e arpões no mistério que os sustenta? Que faz os poetas o declamarem nas horas de maior inspiração? Que, enfim, recolhe corpos em agonia para a finitude da vida?
Quem perto do mar vive conhece suas inclemências e com ele convive feito lar. Quem dele está distante tem o mesmo encanto que aflora nas estrelas em noites de busca, de encanto ou de agonia. Fato é que, por múltiplas razões do desejo, o mar é o que encanta, acima dos campos, dos vulcões e dos quartos entumecidos.
O outono pôs fim à temporada dos esplendorosos cruzeiros, cada vez mais capazes de embelezar a fantasia. Viajar num cruzeiro é fazer do sonho a mágica aventura de vivenciar o imaginado, o desejado, o desvario.
Vejo casais, famílias inteiras e solitários disputando a mesma mesa diante de um crupiê treinado para entreter com a sorte que bafeja as fichas nas noites quando o barco singra o mar.
Buscam a sorte que não encontram em terra. Mas na realização de seus sonhos, é a terra que os acompanha na aventura do mar. Os navios de cruzeiros sabem que seus viajantes querem avançar milhas distantes de suas vidas tomando a precaução de levar todas as comodidades da vida em terra da qual pensam se distanciar.
São seres que avançam nos mares tendo o conforto de bares, camas, lojas, até piscinas como a afrontar a imensidão das águas que embalam o faz-de-conta da fantasia.
Há quem diga, na pretensão de interpretar o âmago do ser, que o mar tem relação com o amor. Quanto mais se adentra nele, mais se aprofunda na entrega. E por isso há quem mergulhe de cabeça. Também há quem apenas pule as sete ondas. E quem fique à espreita, na beira da falésia, só contemplando. Mais ou menos como fazem os poetas, que à distância miram o surfista sobre a prancha nas caudalosas ondas de Nazaré. Surfista que apenas quer domar o mar em sua crista, sem se entregar a ele. Apenas jogando com a sorte, ele e o mar, sedutor mar, que a muitos alimenta e a outros determina fim ao caminho.