O fogo que não se vê
“Mais assustador que o fogo que dança aflito diante dos olhos, labaredas de insensatez queimam recônditos do bom-senso, da empatia, do amor sem fim. Perdemos a percepção de quem somos? Ataques covardes e drones de vingança matam mais que as chamas ardentes”
Há um fogo que não se vê, além do que esturrica Portugal. Lá a semana se encerrou com 48 incêndios, debaixo de 44 graus. Em todo verão morre muita gente e não sei o quanto de esforço se faz para mitigar a sanha que abrasa o país.
Nos balanços ao vivo da tragédia, o que mais instiga o espanto é um novo recorde: 65 incendiários presos! O clima é apenas o campo fértil a inflamar os espíritos doentes.
O fogo de Portugal não é diferente de outros que não se vê mas calcinam a alma, a economia mundial e a concórdia humana, queimando cada vez mais. O tarifaço tosta o mundo; o ódio esfacela os sonhos coletivos.
Mais assustador que o fogo que dança aflito diante dos olhos, labaredas de insensatez queimam recônditos do bom-senso, da empatia, do amor sem fim. Perdemos a percepção de quem somos? Ataques covardes e drones de vingança matam mais que as chamas ardentes.
No Rossio mais um dia de sol inclemente amanheceu com um corpo decapitado na rua. Não era vítima da crescente onda contra imigrantes, como atualmente em muitos cantos, esquecendo-se que forasteiros fomos todos um dia. No hospital o algoz entregou a cabeça, era um crime passional.
São tantos os casos de barbárie, em ações individuais ou coletivas, de líderes e de liderados, que vivemos a banalização da fúria e frequentemente viramos para o lado.
Sempre há tempo para conter a devastação da espécie, pois a pandemia da discórdia, do extremismo e da agressão pode aplacar, e tudo só depende da compreensão de que, acima das convicções religiosas e ideológicas, e dos interesses econômicos, existe um ímpeto de preservação, afinal, banalizável também pode ser o amor, e este resiste à fornalha. É água que brota no sentimento para aplacar a dor.
Bombeiros enfrentam o fogo em Portugal. Os bem-aventurados hão de enfrentar o fogo que não se vê. Algozes, deixem de decapitar. Ao se entregar uma cabeça do morto, é a de quem entrega que jaz derradeiramente junto com um coração.