terça-feira, 06 de outubro de 2026
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Opinião

Editorial

O futuro da Malha Sul exige consenso e não fragmentação

A decisão unânime dos governadores do Conselho de Desenvolvimento e Integração Sul (Codesul), de formalizar oposição ao modelo de concessão da Malha Sul ferroviária desenhado pelo Ministério dos Transportes, expõe um curto-circuito no federalismo logístico que o País não pode ignorar. Ao propor a divisão da malha de 7,2 mil quilômetros em três corredores isolados para os leilões, o Governo Federal adota uma visão financeira de balcão que ignora a realidade geográfica do cooperativismo e da produção sul-americana. Diante da contestação legítima dos estados do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande Sul e Mato Grosso do Sul, o Ministério precisa recuar, reavaliar seus planos e construir um consenso técnico com as lideranças regionais. A infraestrutura que sustenta cerca de 18% do PIB nacional é complexa demais para ser decidida de cima para baixo.

O cerne do protesto dos governadores, endossado pelas federações da indústria, da agricultura e pelas principais cooperativas desses estados, reside na quebra da coerência logística. O transporte ferroviário de cargas vive da ganho de escala e da fluidez de longas distâncias; fatiar a Malha Sul significa criar fronteiras burocráticas artificiais onde deveria haver integração. A proposta do Codesul de manter a concessão em bloco único faz sentido econômico ao garantir que os trechos de alta densidade e rentabilidade ajudem a subsidiar a manutenção das linhas deficitárias, mas socialmente necessárias. Fragmentar o certame cria o risco real de atrair investidores apenas para as joias da coroa e abandonar o restante da malha à degradação definitiva — cenário ainda mais preocupante após os severos danos estruturais deixados pelo desastre climático de 2024.

Além do mérito técnico do debate, a forma como o processo foi conduzido pelo Ministério dos Transportes agrava a desconfiança institucional. É inaceitável que o governo central elabore uma modelagem desse impacto sem compartilhar os estudos técnicos conduzidos pela Infra S.A. com as próprias administrações estaduais afetadas. O diálogo federativo não é uma formalidade protocolar ou um favor do Executivo; é uma exigência de eficiência. Os estados não querem apenas ser comunicados sobre o destino de suas ferrovias; eles exigem o direito de auditar os passivos deixados pela atual operadora e de contratar análises complementares para garantir que a transição contratual em 2027 não resulte em trilhos parados.

O Ministério dos Transportes tem o mérito de colocar o modal ferroviário no centro da agenda com a promessa de R$ 140 bilhões em investimentos nacionais. Contudo, essa ambição não se concretizará se os projetos forem empurrados contra a vontade das forças produtivas e dos governos locais que melhor conhecem os gargalos do interior do país. Sentar à mesa com o Codesul e pactuar um modelo unificado não é sinal de fraqueza, mas de maturidade política. O Brasil não precisa de leilões rápidos que gerem litígios futuros; precisa de contratos robustos e de consenso regional para que os trilhos do Sul voltem a ser o motor de nossa competitividade.

 

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