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Opinião

Editorial

O interior do Brasil quer voar

Os aeroportos do Centro-Oeste movimentaram 33,7 milhões de passageiros nos quatro primeiros meses de 2026, o maior volume para o período em uma década, superando inclusive os números pré-pandemia de 2019. O dado é relevante não apenas como indicador de recuperação do setor aéreo, mas como sinal de uma demanda que o Brasil conhece há décadas e ainda atende de forma incompleta: a necessidade de conectividade aérea no interior de um país continental, onde rodovias longas e ferrovias escassas fazem do avião o único modal capaz de garantir mobilidade real entre municípios separados por centenas de quilômetros.

O crescimento mais eloquente não está, neste caso, nos grandes terminais. Brasília cresceu 11,1%, número expressivo para um hub de sua dimensão. Mas são os aeroportos do interior que revelam o fenômeno com maior clareza. Sinop, polo do agronegócio mato-grossense, registrou alta de 14,5%. Bonito, destino de ecoturismo em Mato Grosso do Sul, cresceu 53,6%. Dourados, que retomou operações comerciais após obras de infraestrutura, já movimenta quase 20 mil passageiros em quatro meses. Esses não são números de aeroportos maduros que crescem por inércia, mas sinais de mercados reprimidos que respondem com vigor quando a oferta de voos aparece. O que eles demonstram é que a demanda por aviação regional no interior do Brasil existe, é robusta e está sendo sistematicamente subestimada.

A tensão entre esse crescimento e a crise que o setor aéreo atravessa é real e não pode ser ignorada. Como o BE News destacou recentemente, a alta do querosene de aviação, que praticamente dobrou de preço em menos de três meses antes de recuar parcialmente, provocou o cancelamento de mais de 6.200 voos em dois meses em todo o país, com impacto desproporcional justamente sobre as rotas regionais de menor densidade. Gol e Azul, as companhias com maior presença no interior brasileiro, concentraram mais de 86% dos cortes. O crescimento dos aeroportos do Centro-Oeste nos primeiros quatro meses do ano é, em parte, o retrato de um período anterior à escalada mais aguda do combustível. E o desafio real é garantir que esse crescimento não seja revertido por uma estrutura de custos que torna as rotas regionais as mais vulneráveis a qualquer choque externo.

O BE News entende que o Governo Federal precisa avançar em três frentes simultaneamente para que o crescimento registrado se consolide em infraestrutura permanente, e não apenas em ciclo conjuntural. A primeira é a conclusão das obras de modernização dos terminais regionais já em andamento. Aeroportos como o de Dourados, que só voltou a operar após obras, ilustram como a infraestrutura física é pré-condição para que qualquer companhia considere inaugurar ou manter rotas. A segunda é a revisão da estrutura tributária do QAV nas rotas regionais, onde a carga fiscal representa parcela ainda maior do custo total e onde o mercado não tem escala para absorver variações de preço sem cancelar frequências. A terceira é a aceleração do programa de concessões de aeroportos regionais, que precisa avançar para além dos terminais mais lucrativos e alcançar os pequenos aeroportos do interior, onde o investimento privado na gestão e na ampliação da capacidade pode transformar terminais subaproveitados em pontos de conexão efetivos.

O caso de Bonito merece atenção especial. Um crescimento de 53,6% no tráfego de passageiros num destino de ecoturismo em Mato Grosso do Sul não é apenas uma boa notícia para o setor de turismo. É a demonstração de que aviação regional e desenvolvimento econômico local se retroalimentam. Quando há voo, o turista chega. Quando o turista chega, a economia local cresce. Quando a economia local cresce, a demanda por mais voos aumenta. Esse ciclo virtuoso depende, porém, de que as companhias aéreas consigam manter rotas que, individualmente, têm margens estreitas e alta sensibilidade ao custo do combustível. Garantir que esse ciclo não se quebre na próxima crise de QAV é uma responsabilidade que vai além do mercado. É uma questão de política pública de conectividade territorial.

O Centro-Oeste exporta hoje uma parcela crescente dos alimentos que o mundo consome, gera energia, atrai turistas e projeta demanda de serviços que o isolamento geográfico historicamente limitou. O avião é, nessa realidade, muito mais do que um meio de transporte. É o vetor que conecta o dinamismo econômico do interior às oportunidades dos grandes centros e do mercado global. O Brasil tem, nos dados desta semana, evidência de que sua população do interior quer e precisa voar mais. Falta ao Estado a decisão de construir, com consistência e continuidade, a infraestrutura e o ambiente regulatório que tornem isso possível além dos momentos de crescimento conjuntural.

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