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Selma Culturati

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O lado humano dos indicadores: Quando os números contam apenas parte da história

Todas as organizações podem medir dados, mas as melhores também aprendem a medir comportamentos, compreendendo que alguns dos ativos mais valiosos — confiança, reputação, integridade e cultura — dificilmente cabem por inteiro em uma planilha, embora sejam exatamente os que sustentam todos os demais indicadores, quando o cenário deixa de ser favorável.

Sem dúvida, vivemos a era dos indicadores. Quase tudo pode ser acompanhado por um painel, um gráfico ou um dashboard. Existem métricas para produtividade, satisfação, rentabilidade, inovação, sustentabilidade, diversidade, clima organizacional e até para a própria cultura. Nunca produzimos tantos dados sobre as organizações.

Mas… desse lugar, vem uma provocação: Quão próximos estamos de compreender e evoluir com essas métricas?

A gestão moderna está embasada sobre uma premissa bastante razoável: aquilo que pode ser acompanhado tende a ser melhor administrado. Foi justamente dessa necessidade de transformar estratégia em resultados que nasceram metodologias como os OKRs (Objectives and Key Results), capazes de conectar grandes objetivos estratégicos a resultados mensuráveis. Os chamados Key Results funcionam como evidências concretas de progresso, permitindo que a organização acompanhe se está, de fato, caminhando na direção que definiu.

Na mesma lógica, o tradicional ciclo PDCA (Plan, Do, Check, Act) consolidou a ideia de que nenhum planejamento é definitivo. Planejar, executar, verificar e agir corretivamente tornou-se um processo contínuo de aprendizado, no qual os indicadores deixam de ser apenas instrumentos de controle para se transformarem em ferramentas de melhoria permanente.

O sucesso dessas metodologias fez nascer uma verdadeira cultura da mensuração. Hoje convivemos com KPIs (Key Performance Indicators), que medem o desempenho de processos e resultados; OKRs (Objectives and Key Results), que conectam objetivos estratégicos a resultados mensuráveis; KRIs (Key Risk Indicators), utilizados para monitorar riscos e antecipar potenciais problemas; SLAs (Service Level Agreements), que estabelecem níveis de serviço e padrões de desempenho esperados; e, tantas outras siglas que, muitas vezes, parecem formar um idioma próprio da gestão contemporânea. 

Em certa medida, isso é uma boa notícia.

Organizações que medem seus resultados costumam decidir melhor. Conseguem identificar desvios antes que eles se tornem crises, direcionam investimentos com mais racionalidade e acompanham sua evolução com maior objetividade. Os indicadores reduziram o espaço para decisões baseadas exclusivamente em percepções ou intuições.

No entanto, mesmo tendo uma ferramenta poderosa em mãos, há alguns riscos silenciosos, que nem sempre são imediatamente percebidos. Um deles, é quando os números passam a ser o objetivo, e não o instrumento, fazendo com que algo importante comece a se perder.

Esse fenômeno pode ocorrer em praticamente todas as áreas da gestão, pois, equipes passam a perseguir metas sem compreender seu propósito. Departamentos concentram esforços no indicador que será apresentado à diretoria, ainda que isso represente sacrificar aspectos igualmente importantes, mas menos visíveis. Aos poucos, instala-se uma cultura em que as pessoas aprendem a administrar apenas aquilo que é medido, e não necessariamente aquilo que realmente importa.

É justamente nesse ponto em que governança, cultura organizacional e compliance entram como fortes aliados do processo integrado de gestão, uma vez que, existem para produzir confiança, independentemente dos números e metas perseguidos para formar os relatórios. 

Uma boa governança não se resume ao número de dados gerados em seus mais diversos indicadores, mas à qualidade das decisões tomadas. Uma cultura ética não pode ser medida apenas pela participação em treinamentos, mas pela capacidade de influenciar comportamentos quando ninguém está observando. E, um programa de compliance demonstra maturidade, quando sua verdadeira eficácia aparece a partir do momento em que as pessoas se sentem seguras para levantar dúvidas, relatar problemas e tomar decisões corretas mesmo diante de pressões por resultados.

Isso significa que indicadores são insuficientes? Pelo contrário. Eles são indispensáveis.

Indicadores de conclusão de treinamentos, percepção ética, reincidência de não conformidades, tempo de tratamento de relatos, implementação de planos de ação, maturidade dos controles, engajamento, rotatividade, clima organizacional e gestão de riscos oferecem sinais valiosos sobre a saúde institucional. Permitem identificar tendências antes invisíveis, comparar desempenhos ao longo do tempo e apoiar decisões mais consistentes.

Podemos afirmar com segurança de que o indicador é uma representação da realidade, e não a realidade em si. E, como nenhum dashboard consegue medir confiança com absoluta precisão, nenhum gráfico revelará, sozinho, se uma liderança inspira segurança psicológica. Nem uma planilha demonstra o quanto uma organização está preparada para enfrentar um dilema ético quando ele surgir.

Os números contam uma história. As pessoas contam outra, ou complementam o que as estatísticas apontam. E, dessa combinação, entre essas duas narrativas que nasce uma gestão verdadeiramente madura.

Por isso, um grande desafio das organizações contemporâneas seja criar mais que indicadores, desenvolvendo a capacidade de interpretar o que os números não conseguem dizer.

Todas as organizações podem medir dados, mas as melhores também aprendem a medir comportamentos, compreendendo que alguns dos ativos mais valiosos — confiança, reputação, integridade e cultura — dificilmente cabem por inteiro em uma planilha, embora sejam exatamente os que sustentam todos os demais indicadores, quando o cenário deixa de ser favorável.

No fim, talvez a pergunta mais importante não seja quais indicadores estamos acompanhando, mas quais comportamentos estamos incentivando para que esses indicadores existam.

A resposta para essa pergunta costuma revelar muito mais sobre uma organização do que qualquer dashboard jamais conseguirá mostrar. 

Agora, fica a pergunta: Como esse assunto vem sendo tratado na sua empresa?

Contato pelo e-mail: compliance@grupobrasilexport.com.br.

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