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Valter Branco

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O legado operacional de Michael da Silva

Uma trajetória de disciplina operacional que moldou a logística portuária brasileira

Ouvi recentemente, em um filme, que a missão de um homem na sociedade é ser lembrado, e sua missão no meio ambiente é ser esquecido, sem deixar rastros. A frase ficou comigo. E foi ela que me trouxe à memória o legado de um profissional que marcou profundamente a logística de contêineres no Brasil.

Michael Martins da Silva, também conhecido como Michael da Silva ou simplesmente “Mike”, nasceu em 1947, no Rio de Janeiro. Filho de mãe norte-americana, Dorothy, e pai brasileiro, Maurício, possuía dupla nacionalidade. Seu pai, pediatra de destaque, foi convidado a trabalhar nos Estados Unidos e levou a família consigo. Anos depois, já no Brasil, ouvi de parentes o orgulho que tinham do Dr. Maurício Onetto Martins da Silva, integrante da equipe do Dr. Albert Sabin, referência mundial na medicina. Mas essa é apenas a moldura de uma história que ganharia contornos próprios.

Mike nunca foi de falar muito sobre si. Ainda assim, ao longo de décadas de convivência, pequenas peças de sua trajetória foram surgindo. No serviço militar dos Estados Unidos, um teste de aptidão definiu o rumo de sua vida. Enquanto dezenas seguiram para a infantaria, ele foi direcionado para a logística. Ali começava uma vocação que se transformaria em referência. Atuou, inclusive, no transporte aéreo de valores para Guam, apoiando operações militares no Vietnã.

No Brasil, sua carreira ganha forma na Moore McCormack, primeiro no Rio de Janeiro, e, em seguida, em Salvador. A empresa foi adquirida pela U.S. Lines, em 1982, o que o levou para Rio Grande e depois para Santos, onde supervisionou a construção do Terminal Retroportuário no Guarujá. Após a falência da companhia, em 1987, seguiu para a Crowley American Transport. Em São Paulo, como diretor comercial e, posteriormente, como diretor geral na América do Sul, consolidou sua reputação. Foi nesse período, em 1995, que nossas trajetórias se cruzaram.

Lembro com nitidez do primeiro encontro. Eu aguardava na recepção da matriz no Rio de Janeiro para uma entrevista, quando vi passar um homem alto, de cabelos grisalhos, olhar atento e passo acelerado. Ele me observou por um instante e seguiu. Naquele momento, eu não tinha ideia, mas hoje tenho certeza de que ele já sabia exatamente quem eu era e o que eu fazia ali.

Fui contratado. Dois anos depois, Mike me convidou para participar de um projeto que mudaria o atendimento ao cliente da empresa no Brasil. Após uma imersão na matriz em Jacksonville e visitas a todas as filiais brasileiras, recomendamos a centralização pioneira do atendimento em Santos. Ele aprovou. O resultado foi uma operação mais eficiente e reconhecida com diversos prêmios de atendimento ao cliente na rota dos Estados Unidos.

Mike era um inovador com mentalidade operacional. Nunca conheci pessoa tão exigente em suas cobranças, dura e severa nas negociações, mas sempre preservando a lealdade. Para ele, o navio no horário era prioridade absoluta. Confiabilidade não era meta, era regra. Não hesitava em interromper operações, mesmo diante de filas de caminhões carregados, para garantir o cumprimento do schedule. Em um setor dominado por pressões comerciais, ele impunha disciplina operacional.

Teve visão pioneira ao apostar em terminais privatizados e rapidamente confirmou operações no então recém-privatizado Terminal da Libra. Foi também um dos grandes incentivadores da cobrança de THC, praticamente assegurando sua introdução na Conferência Interamericana de Fretes, em 1995. Expandiu operações para novos portos, como Suape, onde liderou a implantação de serviços regulares de contêineres.

Foi o primeiro “vice president” a receber o Troféu Thomas Crowley fora dos Estados unidos. Um justo reconhecimento à sua dedicação e eficiência.

Com a venda da Crowley para a Hamburg Süd, em 1999, enfrentou o desafio de adaptação a uma nova cultura. No início, sentiu alguma dificuldade. Mas sua competência prevaleceu. Assumiu a Diretoria de Operações e tornou-se uma referência incontestável. Participou ativamente de conselhos de Autoridade Portuária e conduziu decisões estratégicas importantes, como ajustes operacionais em Suape e Recife.

Em Pecém, enfrentou condições adversas, com infraestrutura ainda incompleta e correntes marítimas intensas que comprometiam a atracação. Encontrou soluções práticas, como a importação de cabos elásticos. Em outro episódio marcante, conseguiu, por via judicial, a desatracação de um navio concorrente, em plena operação festiva de lançamento de serviço.

Seguindo sua visão de eficiência, trabalhou para a implementação de janelas de atracação nos principais portos brasileiros, consolidando previsibilidade operacional. Também liderou o processo de autorização de acesso para navios cada vez maiores, de 272, 286 até 300 metros, culminando em 2012 no desafio do Cosco Vietnam, com 334 metros. Uma operação complexa, prematura para a época e conduzida com sucesso.

Mas toda essa intensidade teve seu custo. Anos de dedicação extrema, noites mal dormidas, viagens constantes e pressão contínua começaram a impactar sua saúde. Aos 65 anos, teve seu desligamento compulsório por idade, uma regra da empresa, mesmo não sendo obrigado contratualmente. Ainda assim, seguiu contribuindo no setor, agora como diretor comercial em um terminal de contêineres, até que o corpo já não acompanhava o ritmo de sempre.

Michael da Silva nos deixou em 2020.

Seu legado, porém, permanece vivo em cada operação mais eficiente, em cada janela de atracação respeitada, em cada avanço na logística portuária brasileira. Mike não buscava reconhecimento público. Não construía discursos. Construía resultados.

E talvez esteja aí a maior contradição daquela frase inicial. Alguns homens passam pela vida sem deixar rastros. Outros, como Mike, deixam marcas tão profundas que se tornam impossíveis de apagar.

Ele pode até ter partido em silêncio. Mas o setor que ajudou a construir continua falando por ele, todos os dias.

Valter Branco escreve semanalmente para o BE News, com seus textos publicados às segundas-feiras.

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