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“O livreiro do Tik Tok”, por Luiz Dias Guimarães

“Na velha livraria o velho livreiro não tinha a pretensão de conhecer tudo, mas transitava pelas estantes como quem esquia na neve. Só parava às 15 horas, religiosamente, quando seus quatro ou cinco amigos chegavam para disputar no palitinho quem pagaria o café no dia”

O carro freou bruscamente e ela saltou esbaforida no meio da noite como se estivesse atrasada para um compromisso. Celular na mão, momentos depois estaria dividindo sua atenção entre postagens do Tik Tok e mais um episódio da série na televisão.

O homem desistiu de chamar-lhe a atenção para as lições de casa. Quem dera a menina tivesse saído às pressas do carro para fazê-las. Mas por que a pressa? Ainda não eram dez horas da noite e a primeira aula seria só às sete e vinte do dia seguinte!

Sem querer se aborrecer, o homem foi pro quarto e abriu o livro que comprara de Luiz Fernando Veríssimo, mas logo se aborreceu. Não era o que esperava. Queria um livro com crônicas do admirável Veríssimo e o que levara, por obrigação ou para não se sentir frustrado como agora, não era o que esperava.

Queria textos curtos e engraçados. 

O homem, tal qual a menina, estava nesse dia sem disposição para longas leituras. Na idade dela lia muito, ainda que consumisse avidamente toda semana a última edição de ZZ7, livrinhos que contavam as aventuras de Brigite, a filha de Gisele, espiã nua que morreu em Paris. Ou algo assim. Como algo assim são as séries que a menina devora na televisão.

Na época não havia televisão, muito menos celular. O primeiro trabalho do homem, aos catorze anos, foi vendendo coleções de Monteiro Lobato  e enciclopédia Barsa, que generosamente lhe comprou um erudito amigo de seu pai, detentor de vastíssima biblioteca, só para incentivar o menino.

Fato é que naquele tempo, ZZ7 à parte, lia-se muito mais. Eram outras mídias, outros tempos. Mas também outros livreiros, pensou o homem, frustrado com a nova aquisição à mão que lhe custara sessenta e dois reais.

O homem lembrou da livraria na Rua Frei Gaspar, no Centro, onde  quando menino volta e meia vasculhava as prateleiras atrás de novas descobertas que o apetecessem.

Na velha livraria o velho livreiro não tinha a pretensão de conhecer tudo, mas transitava pelas estantes como quem esquia na neve. Só parava às 15 horas, religiosamente, quando seus quatro ou cinco amigos chegavam para disputar no palitinho quem pagaria o café no dia.

O homem comparou o velho livreiro com o menino que o atendeu numa das poucas livrarias que restaram na cidade. Parado, a espera do pedido, correu para o terminal digitando o nome Luiz Fernando Veríssimo antes que esquecesse o autor. E começou a ler em voz alta as linhas corridas com vários títulos. Claro que haveria Veríssimo em abundância. O homem queria poder folhear as opções, não ler os títulos no computador.

O jovem vendedor então levou o homem para o fundo da livraria e apontou: ”A maioria está na prateleira de baixo”. O homem não conseguiu entender o critério da arrumação, se por ordem alfabética de autores ou outra coisa qualquer. Encontrou três obras de Veríssimo. Sacou o primeiro, mas era de outro Veríssimo. Puxou um segundo, esse sim, mas era um best seller para crianças. Não o queria para o dia. E acabou levando esse  de textos longos.

Não que o achasse ruim, ao contrário. Mas o homem apenas queria poder ler à noite crônicas divertidas, pílulas textuais com a ironia e sarcasmo que o autor expunha semanalmente nos jornais.

Frustrado, na cama, o  homem descartou o livro, levantou  e correu para o celular, onde, dias antes, havia consultado o Google e morrera de rir com textos de Veríssimo.

Mas não conseguiu. A menina havia dominado o aparelho, já que o dela acabara a bateria.

Ao homem só restou ir dormir, afinal já era quase meia-noite e a menina, quando se cansasse do Tik Tok, ainda iria fazer as lições do dia. Digitalmente.

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