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João Fortunato

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O mercado agora sabe tudo

Não há nada de errado em ouvir o mercado. O problema está em transformá-lo em uma espécie de oráculo econômico.

O problema não é ouvir o mercado. É ouvir apenas o mercado. O problema não é o jornalista apresentar uma previsão de inflação feita por um economista de uma instituição financeira. É deixar de informar ao leitor que aquela é uma previsão, e não um fato.

O mercado agora sabe tudo! Arrisca palpites sobre a inflação, o valor do dólar, a dívida pública, os juros fixados pelo Banco Central e até sobre os investimentos sociais do governo, independentemente de serem destinados à saúde, à educação ou ao combate à fome. É só perguntar que o mercado responde. E, não raro, para apontar erros do governo ou, pior, para fazer previsões que muitas vezes não se confirmam.

Apesar de tudo isso, o chamado mercado financeiro transformou-se em fonte privilegiada e, em determinados momentos, praticamente única, de parte importante da imprensa econômica brasileira, que passou a funcionar como sua caixa de ressonância.

É difícil dizer quando essa “chave” virou. Até meados da década de 1990, pelo menos, as fontes consultadas pela imprensa eram, em boa medida, instituições especializadas em produzir e interpretar dados. Quando o tema era inflação, os jornalistas recorriam aos técnicos da Fipe — Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas. O seu Índice de Preços ao Consumidor (IPC-Fipe), criado muito antes e tradicional na medição do custo de vida na cidade de São Paulo, era uma referência para acompanhar a evolução dos preços. A metodologia parte de preços efetivamente coletados no mercado, e não de palpites formulados em salas de reunião.

Quando o assunto era desemprego e as transformações do mercado de trabalho, outra fonte tradicional era o DIEESE, em parceria com a Fundação Seade. A Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) acompanhou durante décadas a realidade do mercado de trabalho, particularmente na Região Metropolitana de São Paulo, produzindo indicadores que permitiam compreender não apenas o número de desempregados, mas também as características e transformações desse mercado.

A imprensa também repercutia essas informações junto aos sindicatos e às centrais sindicais, sem deixar de ouvir as entidades patronais, como Fiesp, Fecomercio, Associação Comercial e Sociedade Rural Brasileira, entre outras. Muitas delas mantinham departamentos econômicos que analisavam os dados oficiais e apresentavam suas próprias interpretações.

Havia, portanto, um esforço para ouvir diferentes lados. O cidadão recebia informações produzidas por instituições que tinham métodos, pesquisas e séries históricas para sustentar suas análises. Cabia ao jornalista confrontar essas informações, contextualizá-las e apresentá-las ao público. Não se tratava de eliminar a opinião, mas de separá-la do fato. O cenário mudou.

Hoje, o economista-chefe de um banco, de uma corretora, de uma gestora de recursos ou de uma fintech pode se transformar, da noite para o dia, em fonte recorrente de jornais, revistas, sites e telejornais. Suas projeções sobre inflação, juros, câmbio, dívida pública e atividade econômica são reproduzidas com enorme destaque. Mas de onde vêm os dados que sustentam essas previsões?

Nem sempre isso fica claro para o leitor. Muitas vezes, a informação aparece simplesmente atribuída ao “mercado” ou a “analistas ouvidos pela reportagem”, sem que se explique suficientemente qual é a metodologia utilizada, quais dados foram considerados ou quais interesses econômicos estão relacionados à instituição à qual pertence o entrevistado.

Não há nada de errado em ouvir o mercado. O problema está em transformá-lo em uma espécie de oráculo econômico.

Uma instituição financeira tem, evidentemente, interesses legítimos e uma determinada visão sobre a economia. Um gestor de investimentos precisa acompanhar juros, inflação, câmbio, dívida pública e decisões do Banco Central porque esses fatores afetam diretamente seus negócios. O problema surge quando essa visão particular passa a ser apresentada ao público como se fosse a única leitura possível da realidade econômica. E há algo ainda mais curioso.

Para boa parte desses analistas, a explicação para os problemas econômicos brasileiros parece obedecer quase sempre ao mesmo roteiro: o Governo arrecada mal, gasta demais, a máquina pública é inchada, os investimentos sociais são excessivos e é preciso cortar despesas. Benefícios sociais são frequentemente classificados como gastos; investimentos públicos podem ser tratados como despesas; e políticas destinadas à população de baixa renda são, não raro, qualificadas como “eleitoreiras”.

Mas, quando se fala em gasto público, não seria necessário olhar para todo o orçamento? É preciso também discutir os incentivos e subsídios concedidos a diferentes setores da economia, inclusive aqueles que já não apresentam a mesma justificativa que tiveram quando foram criados. É preciso examinar os gastos tributários, os benefícios fiscais, as despesas financeiras e, igualmente, o volume de recursos destinado às emendas parlamentares.

Em vez disso, muitas vezes a discussão concentra-se quase exclusivamente nos gastos que o Governo executa diretamente, como se fossem eles os únicos responsáveis pelo desequilíbrio das contas públicas. O problema não está em defender responsabilidade fiscal. Ela é necessária. O problema está em transformar uma determinada interpretação sobre responsabilidade fiscal em verdade absoluta, sem apresentar ao leitor o conjunto completo das informações.

E aqui está uma das questões centrais do jornalismo econômico contemporâneo: quem define quais dados são importantes e quais vozes devem interpretá-los?

O Dieese continua produzindo pesquisas e análises próprias. Sua Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, por exemplo, acompanha mensalmente os preços de alimentos em 27 capitais e permite avaliar o impacto da inflação sobre o orçamento do trabalhador. Em junho de 2026, a pesquisa registrou alta do custo da cesta em 17 capitais e queda em outras dez.

São informações que ajudam a enxergar a economia a partir de outro ponto de vista: o do cidadão que vai ao supermercado, paga aluguel, transporte, escola, remédios e contas domésticas. Não substituem os indicadores produzidos por outras instituições. Muitas vezes, complementam.  É justamente isso que deveria fazer o jornalismo.

Ao abandonar fontes tradicionais, institutos de pesquisa, universidades, entidades de trabalhadores, organizações empresariais e especialistas de diferentes correntes para ouvir predominantemente um único segmento (eivado, por definição, de interesses próprios), a imprensa corre o risco de produzir uma narrativa econômica parcial.

O problema não é ouvir o mercado. É ouvir apenas o mercado. O problema não é o jornalista apresentar uma previsão de inflação feita por um economista de uma instituição financeira. É deixar de informar ao leitor que aquela é uma previsão, e não um fato. É não explicar quais são suas premissas. É não a confrontar com outras projeções. É não voltar ao assunto quando a previsão não se confirma.

Previsões econômicas fazem parte da economia. Errar também faz parte. O que não deveria fazer parte do jornalismo é transformar previsões em fatos consumados ou permitir que interesses de um determinado segmento sejam apresentados como se fossem o retrato neutro da realidade. O jornalismo deveria voltar a desempenhar seu papel essencial: apurar, confrontar, contextualizar e explicar.

A imprensa não precisa entregar ao público uma opinião pronta. Precisa entregar informação suficiente para que cada cidadão possa formar a sua própria opinião. Quando o jornalismo deixa de cumprir essa função e passa a entregar uma interpretação já formatada, embalada e pronta para consumo, ele deixa de ser apenas transmissor de informação. Torna-se participante ativo da construção da narrativa.

E é justamente aí que mora o perigo. Porque, quando todos os caminhos levam à mesma fonte, talvez não seja mais jornalismo econômico. Talvez seja apenas o mercado falando e a imprensa repetindo.

João Fortunato escreve para o BE News semanalmente. 

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