terça-feira, 06 de outubro de 2026
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Opinião

Editorial

O necessário despertar das hidrovias

O Brasil, dono de uma das redes hidrográficas mais extensas e privilegiadas do planeta, cometeu o erro histórico de dar as costas a seus rios. Com apenas 5% das cargas nacionais deslizando por águas fluviais, o País carrega o peso de uma matriz logística desequilibrada e custosa. O anúncio do Ministério de Portos e Aeroportos de acelerar o programa de concessões hidroviárias não é apenas uma escolha técnica; é um imperativo econômico e ambiental para uma nação que precisa de eficiência para competir globalmente.

A importância de expandir os projetos hidroviários reside em uma matemática simples e avassaladora: o custo de implantação. Enquanto ferrovias estruturantes demandam dezenas de bilhões de reais, as concessões hidroviárias desenhadas para 20 anos exigem aportes significativamente menores para entregar resultados imediatos. Ao focar em dragagem, sinalização e manutenção — serviços que seriam delegados à iniciativa privada —, o Governo destrava caminhos naturais que já estão prontos, aguardando apenas a gestão eficiente que o setor público, castigado por restrições fiscais, muitas vezes não consegue prover.

Avançar com os planos de concessão no Rio Madeira, no Paraguai ou na estratégica “Hidrovia Verde” no Amazonas é a via mais curta para reduzir o “Custo Brasil”. O modelo de parceria com o setor privado, longe de ser uma “privatização dos rios”, é a garantia de agilidade e incentivo à produtividade. O rio permanece público, mas o serviço de mantê-lo navegável ganha o rigor e a tecnologia de quem vive da eficiência logística. É o pragmatismo necessário para um país que não pode mais desperdiçar o potencial de seus cursos d’água, enquanto estradas esburacadas encarecem o alimento e a commodity.

No entanto, a contundência desse projeto depende da solidez de sua governança social. O alerta do Tribunal de Contas da União (TCU) e as demandas de comunidades tradicionais não devem ser vistos como âncoras, mas como bússolas. O diálogo transparente com povos indígenas e populações ribeirinhas é a única forma de garantir que o progresso econômico não atropele a sustentabilidade social. O “mindset” que precisa ser mudado, como defende o Governo, é o de que desenvolvimento e preservação são excludentes.

O Brasil precisa, enfim, de coragem para bater o martelo na B3 e realizar a primeira concessão hidroviária ainda este ano. Integrar rios, trilhos e portos é a fórmula definitiva para tirar o País da paralisia logística. O futuro do transporte nacional não está apenas no asfalto; ele corre, caudaloso e promissor, por bacias hidrográficas. É hora de o Estado brasileiro parar de remar contra a maré e colocar a economia para navegar.

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