O Nordeste em debate
Reunir em Maceió (AL) autoridades, empresários, operadores portuários, especialistas em Logística e representantes do setor de energia para debater os caminhos para o desenvolvimento do Nordeste não é gesto protocolar. É o reconhecimento de que a região vive um momento raro: a convergência de oportunidades estruturais que raramente se apresentam ao mesmo tempo e, em especial, que podem ser desperdiçadas se não houver decisão, articulação e investimento à altura.
O Nordeste deixou de ser apenas corredor de passagem de cargas do Centro-Oeste em direção à Europa e à Ásia. Com o avanço do agronegócio sobre o cerrado piauiense e baiano, com a consolidação de rotas de exportação de soja e milho pelo Arco Norte e pela fachada atlântica nordestina e, principalmente, com a iminência da entrada em vigor do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, os portos da região passaram a disputar, com vantagens reais de distância e custo de frete, cargas que até poucos anos eram invariavelmente embarcadas em Santos (SP) ou Paranaguá (PR). Essa janela não se manterá aberta por inércia.
É precisamente aí que o Fórum Nordeste Export, promovido pelo Grupo Brasil Export nesta segunda e terça-feira, na capital alagoana, cumpre papel que vai além da troca de experiências entre pares. Fóruns como este têm valor quando geram três resultados concretos: diagnósticos compartilhados entre setor público e privado sobre os gargalos reais, não apenas os percebidos; compromissos verificáveis de investimento e de agenda regulatória; e sinalização ao mercado de que a região tem governança e articulação suficientes para absorver capital de longo prazo. Os três dependem da qualidade dos debates que começam hoje, e não apenas da presença de autoridades na mesa.
A pauta do evento é densa e bem estruturada. A discussão sobre a Declaração Única de Importação (Duimp) toca num ponto crítico: a modernização do despacho aduaneiro é condição necessária para que os ganhos de competitividade logística dos portos nordestinos não sejam neutralizados por burocracia na ponta. O painel sobre dragagem — com foco em tecnologia e sustentabilidade — endereça diretamente a principal limitação operacional de terminais como o de Maceió, que precisam ampliar seu calado para receber navios de maior porte sem perder eficiência. E o painel InfraJur, dedicado à segurança jurídica nos contratos de infraestrutura e energia, trata do problema mais persistente do setor no Brasil: a instabilidade regulatória que eleva o custo do capital e afasta o investidor antes mesmo de o projeto ser estruturado.
A visita técnica ao Porto de Maceió e ao terminal da Origem Energia, prevista para amanhã, tem valor simbólico e prático. Maceió não é apenas sede do fórum — é um caso concreto dos desafios e das possibilidades que a agenda propõe discutir. O Porto de Maceió opera com restrições de infraestrutura que limitam seu potencial como ponto de escoamento de cargas do interior alagoano e de estados vizinhos. O Projeto de Estocagem Subterrânea de Gás Natural (ESGN), que será apresentado durante a visita, ilustra como a região começa a construir uma infraestrutura energética mais sofisticada — e como essa construção pode atrair indústrias que demandam segurança no fornecimento de energia.
O Nordeste Export cumpre sua função mais elevada quando os compromissos firmados nos painéis se transformam em projetos com CNPJ, cronograma e fonte de financiamento identificada. A região não carece de diagnósticos. Eles existem, são precisos e, em muitos casos, estão arquivados em prateleiras de ministérios e agências reguladoras. O que falta, sistematicamente, é a decisão de agir sobre eles. Que os dois dias de Maceió contribuam para encurtar essa distância entre o debate e a obra.