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Raul Lamarca

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O novo paradoxo da logística brasileira: low-tech no negócio, high-tech na mentalidade

Indústrias como farmacêutica, aeronáutica, semicondutores e finanças digitais vivem sob um mantra simples: quem não inova, desaparece. (…) Já a logística — incluindo portos, aeroportos, rodovias, ferrovias e operadores multimodais — cresceu por décadas sem precisar dessa pressão. O setor sempre funcionou sob uma lógica mais lenta, mais física e menos informacional. Essa relativa estabilidade criou a sensação perigosa de que inovar “não é urgente”.

Na última coluna discutimos por que informação já vale tanto quanto carga. Hoje avançamos para um ponto ainda mais crítico: por que alguns setores tratam inovação como sobrevivência — e outros ainda a tratam como um opcional confortável.

(texto) 

A coluna da semana passada mostrou uma virada estrutural na logística: a informação está se tornando tão valiosa quanto a carga. Nesta edição, seguimos para a pergunta que está por trás dessa mudança:
por que setores tradicionais, mesmo diante dessa nova realidade, ainda tratam inovação como algo que pode esperar?

A resposta começa pelo contraste entre setores high-tech e setores low-tech. E nela está o principal risco competitivo da logística na próxima década.

 

Onde inovação é sobrevivência — e onde ainda é escolha

Indústrias como farmacêutica, aeronáutica, semicondutores e finanças digitais vivem sob um mantra simples: quem não inova, desaparece.

Nesses setores, tecnologia, talentos digitais, pesquisa, experimentação e renovação constante são obrigatórios. O ambiente competitivo exige.

Já a logística — incluindo portos, aeroportos, rodovias, ferrovias e operadores multimodais — cresceu por décadas sem precisar dessa pressão. O setor sempre funcionou sob uma lógica mais lenta, mais física e menos informacional. Essa relativa estabilidade criou a sensação perigosa de que inovar “não é urgente”.

Só que agora é.

Por que a lógica mudou: quando a informação passa a valer tanto quanto a carga

Como aprofundamento do artigo anterior:  a logística está deixando de ser apenas o negócio de movimentar ativos — e se tornando o negócio de movimentar inteligência.

É a informação que define:

  • Eficiência operacional
  • previsibilidade,
  • confiança,
  • transparência,
  • redução de risco,
  • e vantagem competitiva real.

Essa lógica vale para todos os modais:

  • aeroportos otimizando slots e conectividade de malha,
  • portos coordenando janelas de atracação com precisão, 
  • ferrovias ajustando capacidade a partir de demanda preditiva, 
  • rodovias analisando fluxos para planejar intervenções, 
  • dutoviários antecipando falhas com sensores inteligentes.

Hoje, quem controla melhor a informação, controla melhor o custo, o risco e a velocidade — e, portanto, ganha.

 

O ponto cego: achar que inovar é comprar TI

Há um erro clássico no setor: confundir inovação com tecnologia.

Comprar sistemas, sensores, softwares e dashboards não é inovar.
Isso é digitalizar.

Inovar é criar capacidade organizacional para solucionar problemas de maneira contínua e estratégica — usando tecnologia como meio, não como fim.

E essa capacidade exige algo que o setor ainda não internalizou totalmente.

 

A lógica histórica que se repete: por que as empresas terão que criar “áreas de inovação”

Há um padrão recorrente na história corporativa:

  • Década de 1950: a televisão cria a mídia de massa → as empresas criam áreas de marketing e comunicação. Orçamento, pessoas, processos e políticas internas surgem como resposta à nova realidade.

  • Década de 1990: a internet transforma a operação empresarial → todos criam áreas de TI. Novamente: orçamento, pessoas, processos, governança e estratégias internas surgem.

  • Década de 2020 em diante: agora o mesmo movimento acontece com a inovação. Com a chegada da IA — que tem impacto, velocidade e abrangência de tsunami — as empresas serão obrigadas a criar:

    • orçamento próprio para inovação,
    • profissionais dedicados,
    • processos claros,
    • métricas e governança,
    • e políticas internas que tratem inovação como disciplina.

Assim como marketing se tornou departamento, e TI também se tornou, inovação será parte estrutural das empresas que querem competir.

Não mais como projeto isolado. Mas como função organizacional.

 

Logística: o setor low-tech que não pode mais se comportar como tal

O grande risco do setor não é a concorrência. É a mentalidade. Muitos players ainda pensam: “Posso operar por mais 5, 10, 15 anos sem grandes transformações.”

Sim, pode. Mas ao custo de:

  • menor eficiência,
  • menor capacidade de integração,
  • menor atração de talentos,
  • menor relevância estratégica,
  • e maior vulnerabilidade competitiva.

Enquanto isso, setores high-tech já estão operando num planeta diferente — e empurrando expectativas para toda a cadeia global.

Conclusão: quem tratar inovação como área estratégica vence; quem tratar como compra de software perde

A logística brasileira está diante de um divisor de águas.

Se na semana passada discutimos o valor da informação, hoje reforçamos o passo seguinte: as empresas terão que tratar inovação como parte da sua estrutura — não como ferramenta, não como projeto, não como prioridade “quando der tempo”.

É a evolução natural de um setor que está deixando de ser apenas operacional e se tornando profundamente cognitivo.

A pergunta que fica é simples e direta: Sua empresa vai liderar essa mudança — ou ser empurrada por ela?

Raul Lamarca escreve para o BE News semanalmente, com seus artigos publicados sempre às sextas-feiras

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