O novo paradoxo da logística brasileira: low-tech no negócio, high-tech na mentalidade
Indústrias como farmacêutica, aeronáutica, semicondutores e finanças digitais vivem sob um mantra simples: quem não inova, desaparece. (…) Já a logística — incluindo portos, aeroportos, rodovias, ferrovias e operadores multimodais — cresceu por décadas sem precisar dessa pressão. O setor sempre funcionou sob uma lógica mais lenta, mais física e menos informacional. Essa relativa estabilidade criou a sensação perigosa de que inovar “não é urgente”.
Na última coluna discutimos por que informação já vale tanto quanto carga. Hoje avançamos para um ponto ainda mais crítico: por que alguns setores tratam inovação como sobrevivência — e outros ainda a tratam como um opcional confortável.
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A coluna da semana passada mostrou uma virada estrutural na logística: a informação está se tornando tão valiosa quanto a carga. Nesta edição, seguimos para a pergunta que está por trás dessa mudança:
por que setores tradicionais, mesmo diante dessa nova realidade, ainda tratam inovação como algo que pode esperar?
A resposta começa pelo contraste entre setores high-tech e setores low-tech. E nela está o principal risco competitivo da logística na próxima década.
Onde inovação é sobrevivência — e onde ainda é escolha
Indústrias como farmacêutica, aeronáutica, semicondutores e finanças digitais vivem sob um mantra simples: quem não inova, desaparece.
Nesses setores, tecnologia, talentos digitais, pesquisa, experimentação e renovação constante são obrigatórios. O ambiente competitivo exige.
Já a logística — incluindo portos, aeroportos, rodovias, ferrovias e operadores multimodais — cresceu por décadas sem precisar dessa pressão. O setor sempre funcionou sob uma lógica mais lenta, mais física e menos informacional. Essa relativa estabilidade criou a sensação perigosa de que inovar “não é urgente”.
Só que agora é.
Por que a lógica mudou: quando a informação passa a valer tanto quanto a carga
Como aprofundamento do artigo anterior: a logística está deixando de ser apenas o negócio de movimentar ativos — e se tornando o negócio de movimentar inteligência.
É a informação que define:
- Eficiência operacional
- previsibilidade,
- confiança,
- transparência,
- redução de risco,
- e vantagem competitiva real.
Essa lógica vale para todos os modais:
- aeroportos otimizando slots e conectividade de malha,
- portos coordenando janelas de atracação com precisão,
- ferrovias ajustando capacidade a partir de demanda preditiva,
- rodovias analisando fluxos para planejar intervenções,
- dutoviários antecipando falhas com sensores inteligentes.
Hoje, quem controla melhor a informação, controla melhor o custo, o risco e a velocidade — e, portanto, ganha.
O ponto cego: achar que inovar é comprar TI
Há um erro clássico no setor: confundir inovação com tecnologia.
Comprar sistemas, sensores, softwares e dashboards não é inovar.
Isso é digitalizar.
Inovar é criar capacidade organizacional para solucionar problemas de maneira contínua e estratégica — usando tecnologia como meio, não como fim.
E essa capacidade exige algo que o setor ainda não internalizou totalmente.
A lógica histórica que se repete: por que as empresas terão que criar “áreas de inovação”
Há um padrão recorrente na história corporativa:
- Década de 1950: a televisão cria a mídia de massa → as empresas criam áreas de marketing e comunicação. Orçamento, pessoas, processos e políticas internas surgem como resposta à nova realidade.
- Década de 1990: a internet transforma a operação empresarial → todos criam áreas de TI. Novamente: orçamento, pessoas, processos, governança e estratégias internas surgem.
- Década de 2020 em diante: agora o mesmo movimento acontece com a inovação. Com a chegada da IA — que tem impacto, velocidade e abrangência de tsunami — as empresas serão obrigadas a criar:
- orçamento próprio para inovação,
- profissionais dedicados,
- processos claros,
- métricas e governança,
- e políticas internas que tratem inovação como disciplina.
Assim como marketing se tornou departamento, e TI também se tornou, inovação será parte estrutural das empresas que querem competir.
Não mais como projeto isolado. Mas como função organizacional.
Logística: o setor low-tech que não pode mais se comportar como tal
O grande risco do setor não é a concorrência. É a mentalidade. Muitos players ainda pensam: “Posso operar por mais 5, 10, 15 anos sem grandes transformações.”
Sim, pode. Mas ao custo de:
- menor eficiência,
- menor capacidade de integração,
- menor atração de talentos,
- menor relevância estratégica,
- e maior vulnerabilidade competitiva.
Enquanto isso, setores high-tech já estão operando num planeta diferente — e empurrando expectativas para toda a cadeia global.
Conclusão: quem tratar inovação como área estratégica vence; quem tratar como compra de software perde
A logística brasileira está diante de um divisor de águas.
Se na semana passada discutimos o valor da informação, hoje reforçamos o passo seguinte: as empresas terão que tratar inovação como parte da sua estrutura — não como ferramenta, não como projeto, não como prioridade “quando der tempo”.
É a evolução natural de um setor que está deixando de ser apenas operacional e se tornando profundamente cognitivo.
A pergunta que fica é simples e direta: Sua empresa vai liderar essa mudança — ou ser empurrada por ela?
Raul Lamarca escreve para o BE News semanalmente, com seus artigos publicados sempre às sextas-feiras