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Luiz Dias Guimarães

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“O poder das rosas”

As rosas garantem nossos vinhos. A sensibilidade das flores é a proteção das uvas, ainda que uvas não sejam o povo que a Bíblia sugere. A cada longa carreira de videiras uma roseira faz a guarda, e embeleza.

Deparo-me com intrigante mistura nas vinhas que percorro com o olhar da parreira que um dia eu sorverei, aos goles, na noite fria. Mal sei o quão atenta foi a rosa a trabalhar para mim, não satisfeita em embelezar minha visita ao vinhedo andino de onde brotou Neruda.

A poesia das flores não está apenas no Chile. Os vinhedos em geral contêm rosas desde 1851, quando na Europa criou-se o costume de usá-las como fiéis guardiãs das safras. Sensíveis que são, servem de alarme contra pragas e doenças fúngicas. Eu observo sua beleza, os viticultores a saúde das roseiras e, a qualquer sinal, tratam de proteger o parreiral do ataque.

É um sistema de controle precoce, pois as roseiras são mais sensíveis que as videiras, além de contribuir para a biodiversidade, atraindo polinizadores e melhorando o microclima para a gestação dos frutos, afinal, atraem abelhas. Não bastasse essa importante função a garantir o que beberei um dia, as rosas embelezam os vinhedos. A beleza está na natureza, mesmo que só dela me dê conta ao usufruir do sabor na minha mesa.

A sabedoria da natureza nem sempre se expõe aos olhos. A sensibilidade tampouco é comum e frequente, mas é fato que a vida lhe dá suas defesas. Como à roseira que, de tanto flagelar pelo ataque dos animais herbívoras, a certo tempo ganhou armas para sua proteção.

Não, não falo de mísseis, esses só servem vergonhosamente ao ataque. Refiro-me aos acúleos, que popularmente chamamos de espinhos, quando nos tocam e sangram ao querermos arrancar a rosa. Nem sempre rosas tiveram acúleos. A pesquisa genética descobriu que os espinhos brotaram um tempo depois. É sempre assim, sofre-se primeiro, e depois surgem os calos.

Há de se valorizar a sensibilidade das rosas. Como de todas as espécies que tocam o coração, ainda que tenham particularidades. A borboleta, que surge das lagartas; o pavão, que se abre para encantar a fêmea; e os corais, agora cada vez mais cinzas de tanta poluição.

Às vezes só reparamos no belo das flores quando usamos seu poder de disseminar a paz, a pureza e a inocência. Às vezes. Como Portugal fez um dia com os cravos, tirados de seus galhos para pregar a harmonia ao fim de tempos sombrios. Como fazemos com as rosas que, desprezando seus espinhos, entregamos a alguém para celebrar o amor.

Em cada caso com uma cor. Assim é, pelo menos, nas vinhas, em que cada carreira exibe uma cor de pétalas determinando a cepa que bebo para celebrar a esperança de que um dia, ao invés de mísseis, lançaremos flores.

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