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Leonardo Ribeiro

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O porto inteligente não existe sozinho: o próximo salto dos portos brasileiros será de integração

O próximo salto de competitividade dos portos não será determinado apenas pela quantidade de infraestrutura construída ou pela quantidade de tecnologia implementada. Será determinado, cada vez mais, pela capacidade de integrar infraestrutura, dados, tecnologia, pessoas e instituições em torno de objetivos comuns.

O ponto de partida não foi “qual tecnologia podemos implementar?”. Foi um problema real: dragagem, gestão do canal, eficiência operacional, destinação do material dragado e sustentabilidade. A partir desse problema, conectaram-se porto, universidades, pesquisadores, startup e empresas. O resultado é muito mais interessante do que simplesmente adquirir uma tecnologia. Criou-se conhecimento. E conhecimento pode ser adaptado, replicado e evoluído.

Infraestrutura conecta territórios. Tecnologia conecta dados. Mas são pessoas e instituições que conectam interesses. E quando essas três dimensões trabalham juntas, começamos de fato a construir portos inteligentes.

Durante muito tempo, quando falávamos sobre o futuro dos portos, a discussão começava quase sempre pelo mesmo lugar: infraestrutura.

Novos berços, aprofundamento de canais, dragagem, expansão de terminais, equipamentos mais modernos, acessos terrestres e aumento da capacidade operacional. Tudo isso continua sendo absolutamente necessário.

Mas, acompanhando de perto a transformação do setor portuário, participando de visitas técnicas a diferentes portos brasileiros e estudando algumas das principais referências internacionais, tenho me convencido de que estamos entrando em uma nova etapa dessa discussão.

O próximo salto de competitividade dos portos não será determinado apenas pela quantidade de infraestrutura construída ou pela quantidade de tecnologia implementada. Será determinado, cada vez mais, pela capacidade de integrar infraestrutura, dados, tecnologia, pessoas e instituições em torno de objetivos comuns.

Essa talvez seja uma das mudanças mais importantes na forma como precisamos pensar o porto do futuro.

A tecnologia já chegou. O desafio agora é integrá-la.

Inteligência Artificial, Digital Twins, Internet das Coisas, visão computacional, sensores, drones, automação, análise preditiva e sistemas de consciência situacional já fazem parte do vocabulário do setor portuário. E isso é positivo.

A Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) vem destacando a digitalização, incluindo inteligência artificial e automação como um dos caminhos para reduzir congestionamentos, melhorar o rastreamento das cargas e aumentar a eficiência das operações portuárias. A discussão ganha ainda mais importância quando lembramos que mais de 80% do comércio mundial de mercadorias, em volume, é transportado por via marítima.

Mas existe uma diferença importante entre ter tecnologia e ser um porto inteligente.

Um porto pode possuir dezenas de sistemas e continuar operando com informações fragmentadas. Pode possuir sensores sem conseguir transformar os dados capturados em decisões. Pode implementar inteligência artificial em processos específicos sem criar inteligência sobre a operação como um todo.

Pode desenvolver excelentes projetos-piloto que nunca conseguem ganhar escala. E pode investir milhões em transformação digital enquanto diferentes atores do mesmo ecossistema continuam trabalhando de maneira isolada.

Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja mais: “Qual será a próxima tecnologia utilizada pelos portos?”

A pergunta deveria ser: “Como utilizaremos tecnologia para fazer o ecossistema portuário funcionar melhor como um todo?”

Essa mudança de perspectiva é fundamental.

Rotterdam: dados só geram valor quando circulam

Rotterdam é provavelmente uma das referências mais citadas quando falamos sobre transformação digital portuária. Mas existe um aspecto do modelo holandês que considero particularmente relevante.

A estratégia não está baseada simplesmente em digitalizar processos individualmente. Existe uma visão de construção de um porto conectado em tempo real, no qual dados e colaboração ajudam a aumentar eficiência, resiliência e sustentabilidade.

O próprio Porto de Rotterdam resume uma das lições dessa trajetória de forma bastante objetiva: dados estão no centro da transformação, mas o compartilhamento é fundamental. 

Em seu relatório digital de 2025, Rotterdam destaca justamente a passagem de pilotos e protótipos para aplicações operacionais concretas e coloca o compartilhamento de dados entre empresas como elemento crítico para gerar benefícios coletivos. Essa é uma distinção importante.

O valor de um dado isolado pertence a uma organização. O valor de dados conectados pode beneficiar um ecossistema inteiro.

Informações sobre chegada de navios, disponibilidade de berços, condições meteorológicas, acessos terrestres, movimentação de cargas, disponibilidade de equipamentos e condições operacionais podem gerar muito mais valor quando fazem parte de uma visão integrada. É quando deixamos de falar apenas em digitalização e começamos a falar em consciência situacional.

Não apenas saber o que aconteceu, mas compreender o que está acontecendo, quais fatores estão relacionados e qual decisão precisa ser tomada.

Antuérpia-Bruges: o porto como laboratório de inovação

Outro benchmark que merece atenção é o Porto de Antuérpia-Bruges. Ali, tecnologias como Digital Twin, sensores inteligentes, câmeras com inteligência artificial e drones autônomos vêm sendo utilizadas para monitoramento, segurança e gestão operacional.

O Digital Twin do porto, por exemplo, integra informações em tempo real e apoia atividades como acompanhamento de atracações, detecção de incidentes e gestão do tráfego portuário.

Mas novamente, o aspecto mais interessante talvez não seja a tecnologia isoladamente.

Antuérpia-Bruges se apresenta como uma plataforma aberta de inovação. Startups, scale-ups, aceleradoras, fundos de investimento, governos e instituições de conhecimento utilizam o ambiente portuário como espaço para testar soluções em condições industriais reais. 

Essa lógica muda profundamente a forma de pensar inovação. O porto deixa de ser apenas comprador de tecnologia e passa a atuar também como orquestrador de um ecossistema de inovação. Em vez de perguntar apenas “qual solução devemos contratar?”, começa-se a perguntar: “Qual problema precisamos resolver e quem precisamos conectar para construir a melhor resposta?”

China: automação em outra escala

Quando olhamos para a China, encontramos outra dimensão dessa transformação. O terminal automatizado de Yangshan, em Shanghai, é um exemplo emblemático.

Sua quarta fase foi estruturada com guindastes de cais controlados remotamente, veículos guiados automaticamente e guindastes automatizados de pátio, coordenados por sistemas inteligentes de controle. O projeto foi concebido para integrar equipamentos e software em uma operação altamente automatizada.

Ningbo-Zhoushan também vem sendo estudado como referência na relação entre transformação digital e resiliência portuária, especialmente diante de riscos climáticos, acidentes operacionais e mudanças no ambiente econômico e geopolítico.

Essas experiências mostram o potencial da automação em escala. Mas também deixam uma lição importante para o Brasil: benchmark não significa copiar.

Rotterdam tem sua realidade. Antuérpia-Bruges tem outra. Shanghai, Ningbo-Zhoushan e outros grandes portos chineses operam em contextos econômicos, regulatórios, trabalhistas e logísticos completamente diferentes dos nossos.

O verdadeiro valor de estudar esses portos está em compreender como eles estruturaram seus ecossistemas para resolver seus próprios desafios. É isso que precisamos aprender.

E o Brasil?

O Brasil possui características que tornam essa discussão particularmente interessante. Temos uma extensa costa, diferentes modelos de portos públicos e terminais privados, cadeias de exportação altamente competitivas, grandes volumes de commodities, complexos industriais integrados a portos e uma diversidade enorme de realidades operacionais. Por isso, provavelmente não existe um único modelo de “Smart Port brasileiro”. E talvez nem devesse existir.

O desafio é desenvolver soluções compatíveis com a realidade de cada porto, mas criar mecanismos que permitam compartilhar experiências, metodologias, tecnologias e aprendizados.

O próprio Ministério de Portos e Aeroportos vem incorporando inovação aos mecanismos de reconhecimento do setor. Na edição de 2026 do Prêmio Portos + Brasil, inovação aparece novamente entre as categorias utilizadas para avaliar portos públicos, terminais arrendados e Terminais de Uso Privado. Isso sinaliza uma mudança importante.

Inovação começa a deixar de ser uma agenda periférica para ocupar espaço dentro da própria discussão sobre gestão e competitividade portuária.

Um exemplo brasileiro que merece atenção

Um caso que considero particularmente interessante é o desenvolvido pelo Porto do Açu envolvendo o reaproveitamento de sedimentos provenientes da dragagem. O projeto estudou as características da lama fluida e do material retirado do canal de navegação, combinando modelagem hidrossedimentológica, dados meteoceanográficos e pesquisa sobre aplicações do material na produção de blocos e argamassas para construção civil.

A iniciativa recebeu certificação internacional da PIANC (Associação Mundial para a Infraestrutura de Transportes Aquaviários) na categoria Supporter of Working with Nature.

Em 2026, o trabalho desenvolvido em conjunto com a UENF (Universidade Estadual do Norte Fluminense) também conquistou o primeiro lugar na categoria “Iniciativas Inovadoras” do Prêmio Antaq (Agência Nacional de Transportes Aquaviários).

Gosto desse exemplo porque ele representa exatamente o tipo de inovação que considero relevante para o setor.

O ponto de partida não foi “qual tecnologia podemos implementar?”. Foi um problema real: dragagem, gestão do canal, eficiência operacional, destinação do material dragado e sustentabilidade. A partir desse problema, conectaram-se porto, universidades, pesquisadores, startup e empresas.

O resultado é muito mais interessante do que simplesmente adquirir uma tecnologia. Criou-se conhecimento. E conhecimento pode ser adaptado, replicado e evoluído.

O verdadeiro desafio é de orquestração

Talvez este seja o ponto central da discussão. Grande parte dos desafios portuários não pertence a uma única organização. Dragagem, acessos terrestres, fluxo de caminhões, integração ferroviária, segurança, descarbonização, eventos climáticos extremos, compartilhamento de dados, relação porto-cidade, formação de mão de obra, transição energética e eficiência logística são temas que envolvem múltiplos atores.

Autoridades portuárias, terminais, armadores, transportadores, órgãos anuentes, municípios, estados, Governo Federal, agências reguladoras, universidades, empresas de tecnologia, startups e comunidades. E, muitas vezes, cada organização enxerga apenas uma parte do problema.

É justamente por isso que tenho repetido uma frase nas discussões das quais participo: Não existe porto inteligente sem ecossistema inteligente.

Um ecossistema inteligente não significa que todos os atores precisam concordar sobre tudo. Significa criar estruturas onde os problemas possam ser identificados conjuntamente, informações relevantes possam circular, responsabilidades sejam claras e soluções possam ser testadas e escaladas. Isso é governança.

E talvez a governança da inovação seja uma das infraestruturas menos visíveis — e mais importantes — dos portos do futuro.

Porto-cidade também faz parte dessa equação

Existe ainda outro ator que frequentemente aparece separado dessa discussão: a cidade.

Não deveria.

Portos geram empregos, movimentam cadeias produtivas, atraem empresas, demandam infraestrutura urbana, impactam mobilidade e ocupação territorial e possuem enorme capacidade de estimular novos negócios.

Da mesma forma, cidades oferecem aos portos mão de obra, serviços, conhecimento, universidades, infraestrutura e qualidade de vida para atrair talentos.

A relação, portanto, precisa ser vista de forma muito mais estratégica. Quando falamos em ecossistema portuário, precisamos incluir o território. Isso significa pensar não apenas em eficiência operacional, mas também em desenvolvimento econômico, inovação, qualificação profissional, economia do mar e atração de investimentos.

Um porto competitivo pode transformar uma região. Mas isso não acontece automaticamente. É preciso articulação.

Tecnologia como meio, não como objetivo

Existe uma tendência natural de associar inovação à tecnologia. Mas inovação portuária pode acontecer de muitas formas.

Pode estar em um novo modelo de governança, em uma mudança de processo, na reutilização de um material que antes era tratado como resíduo, na integração de duas bases de dados que nunca conversaram, na criação de um ambiente regulatório para testar uma nova solução, na aproximação entre universidade e operação ou simplesmente em colocar as pessoas certas na mesma mesa para resolver um problema que há anos é tratado de forma fragmentada.

A tecnologia é extraordinariamente importante. Mas ela precisa estar subordinada a uma pergunta: “Qual problema queremos resolver?”

Quando começamos pela tecnologia, corremos o risco de criar projetos interessantes procurando problemas para justificar sua existência. Quando começamos pelo desafio, podemos escolher a tecnologia adequada — ou descobrir que parte da solução nem sequer é tecnológica.

Do projeto-piloto para a transformação

Outro desafio que merece atenção é a enorme distância existente entre experimentar inovação e institucionalizar inovação. Criar um piloto é relativamente simples. Transformá-lo em operação permanente é outra história.

Para isso, precisamos discutir orçamento, contratação, segurança cibernética, integração com sistemas legados, regulação, governança de dados, propriedade intelectual, treinamento das equipes, manutenção e escalabilidade. É nessa transição que muitos projetos perdem força.

Por isso, talvez um dos indicadores mais importantes de maturidade de inovação de um porto não seja quantos pilotos ele realizou, mas quantos problemas conseguiu resolver de maneira permanente. Essa mudança de métrica pode parecer pequena, mas altera completamente a cultura de inovação.

O Brasil tem uma oportunidade

Tenho uma visão otimista sobre essa agenda. Temos portos extremamente relevantes, profissionais qualificados, universidades e centros de pesquisa reconhecidos, empresas brasileiras de tecnologia desenvolvendo soluções sofisticadas, startups, operadores privados com capacidade de investimento e um setor público que vem ampliando a discussão sobre modernização, produtividade e inovação.

Os elementos existem. O próximo passo é conectá-los melhor.

Talvez o grande projeto de transformação digital dos portos brasileiros não seja uma única plataforma, uma única tecnologia ou um único programa. Talvez seja a criação de ecossistemas permanentes de inovação portuária, capazes de aproximar problemas reais de quem possui conhecimento, tecnologia, recursos e capacidade institucional para resolvê-los.

Ambientes onde autoridades portuárias possam apresentar desafios. Onde universidades possam contribuir com pesquisa aplicada. Onde startups e empresas possam testar soluções. Onde operadores possam compartilhar necessidades. Onde governos e reguladores participem desde o início. E onde projetos bem-sucedidos possam ganhar escala.

O porto do futuro será uma plataforma

No século passado, o porto era visto principalmente como infraestrutura. Depois passou a ser compreendido como elo logístico. Agora começa a assumir um papel ainda maior: plataforma de dados, energia, inovação, indústria e desenvolvimento territorial. E, principalmente, plataforma de conexão entre diferentes atores da economia.

Essa transformação exige tecnologia, investimento e infraestrutura. Mas exige também algo que não aparece facilmente em balanços ou projetos de engenharia: capacidade de articulação.

Quanto mais observo portos brasileiros e estudo referências internacionais, mais acredito que essa será uma das competências decisivas da próxima década. Porque infraestrutura conecta territórios. Tecnologia conecta dados. Mas são pessoas e instituições que conectam interesses. E quando essas três dimensões trabalham juntas, começamos de fato a construir portos inteligentes.

Por isso, talvez a pergunta mais relevante para o setor portuário brasileiro hoje não seja “qual tecnologia devemos implementar?”. Talvez seja: “Qual problema queremos resolver, quais atores precisam estar na mesa e como podemos construir juntos a solução?”

A resposta a essa pergunta pode dizer muito sobre quais portos estarão preparados para liderar a próxima geração da logística brasileira.

E deixo uma provocação para quem atua nesse ecossistema: Se pudéssemos reunir amanhã autoridades portuárias, terminais, operadores, armadores, empresas de tecnologia, universidades e governo para resolver um único desafio dos portos brasileiros, qual deveria ser a prioridade?

Talvez as respostas a essa pergunta sejam um bom ponto de partida para a próxima agenda de inovação do setor.

Leonardo Ribeiro. Presidente do Distrito Empresarial do Porto do Rio de Janeiro e Relações Institucionais/líder executivo de Economia do Mar do Lab Secreto. Membro do Conselho do Rio de Janeiro Export, do Fórum Brasil Export.

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