O que a presença em Xangai representa para quem importa e exporta pelo Brasil
No fim, a questão não é simplesmente estar na China, mas também compreender melhor o que está acontecendo na China e o que esses movimentos significam para o Brasil.
Estar em Xangai não é simplesmente ter um escritório em outro país. É estar mais perto de onde decisões que afetam o comércio exterior são tomadas. Em cadeias globais cada vez mais complexas, essa proximidade pode se transformar em vantagem competitiva.
A relação entre Brasil e China mostra a dimensão desse desafio. O mercado chinês é um dos principais para os produtos brasileiros e uma origem fundamental para a indústria nacional. É, portanto, um dos principais eixos da economia brasileira.
Xangai está no centro dessa dinâmica. O porto da cidade movimentou mais de 55 milhões de TEUs em 2025 e manteve a liderança mundial em contêineres. Ao seu redor está uma enorme concentração de indústrias, armadores, fornecedores, tradings, operadores logísticos e empresas de tecnologia.
É aí que a presença física ganha significado. Não se trata apenas de relacionamento institucional, mas de estar próximo das empresas que produzem, compram, vendem, transportam e investem.
Foi a partir dessa leitura que decidimos estabelecer uma representação em Xangai. Mas para compreender movimentos que podem impactar empresas brasileiras e transformar essa proximidade em informação útil para a cadeia.
Para um importador brasileiro, isso pode ter efeitos concretos. Uma mudança na produção de um fornecedor chinês, a abertura de uma nova fábrica, uma alteração na programação de um serviço marítimo ou o aumento da demanda por determinado produto podem mudar completamente o planejamento de uma cadeia de suprimentos.
Quando essas informações chegam tarde, a empresa apenas reage. Quando são identificadas antes, existe espaço para negociar, ajustar estoques, rever fornecedores e planejar embarques. Essa capacidade de antecipação será cada vez mais importante.
O mesmo vale para quem exporta. O Brasil já tem uma relação comercial forte com a China, mas há espaço para ampliar mercados e diversificar produtos. Para isso, não basta conhecer estatísticas. É preciso entender quais setores crescem, quem compra, onde há investimentos e quais necessidades estão surgindo.
Quem identifica uma oportunidade antes dos concorrentes pode adaptar a produção, buscar certificações, ajustar a logística e chegar ao mercado em melhores condições. Nesse sentido, inteligência de mercado deixa de ser uma atividade distante da operação e passa a fazer parte da própria estratégia logística.
Também é preciso olhar para o movimento de empresas chinesas no Brasil. Em 2025, o país recebeu US$ 6,1 bilhões em investimentos chineses, segundo levantamento do Conselho Empresarial Brasil-China. Esses investimentos alcançaram setores como energia, mineração e indústria automotiva.
Cada investimento pode criar uma cadeia logística diferente: uma fábrica pode importar componentes, exportar produtos e demandar novos serviços de armazenagem e distribuição; uma parceria pode criar novos fluxos nos dois sentidos.
Isso mostra que comércio exterior, indústria e logística estão cada vez mais conectados.
Essa transformação exige outra postura dos operadores logísticos. Não basta acompanhar a carga depois que ela foi vendida; é preciso entender os movimentos que podem gerá-la. Para armadores e indústria, significa acompanhar mudanças na demanda, nas estratégias dos embarcadores, nos fornecedores e nas alternativas logísticas.
Todos esses atores ganham quando a informação circula melhor.
É por isso que considero importante a presença de empresas brasileiras em centros estratégicos do comércio mundial. Não para substituir quem já atua nesses mercados, mas para aproximar os diferentes elos da cadeia e criar canais mais rápidos de informação e relacionamento.
A logística internacional mudou. Durante muito tempo, a principal discussão era transportar uma carga de um ponto a outro pelo menor custo possível. Hoje, a decisão envolve também confiabilidade, disponibilidade de capacidade, tempo de trânsito, estoques, riscos geopolíticos, comportamento dos fornecedores e capacidade de reagir a mudanças.
O menor frete nem sempre representa o menor custo. Uma interrupção, um atraso ou uma decisão tomada tarde pode custar muito mais do que alguns dólares economizados na contratação do transporte. Por isso, previsibilidade passou a ser um ativo.
Na nossa experiência, essa é uma das razões pelas quais a relação com os mercados de origem precisa ser cada vez mais próxima. Um terminal portuário não deve enxergar apenas o que acontece no cais. Precisa entender os fluxos que chegam até ele e os fatores que podem modificá-los.
Isso significa conversar com os diferentes elos, acompanhar tendências e ouvir o mercado, reconhecendo que uma decisão na origem pode produzir efeitos importantes milhares de quilômetros depois.
Para quem importa, essa proximidade pode significar mais capacidade de planejamento. Para quem exporta, novos compradores e mercados. Para a indústria, maior conhecimento sobre fornecedores e investimentos. Para operadores logísticos e armadores, soluções mais alinhadas às necessidades dos clientes.
No fim, a questão não é simplesmente estar na China, mas também compreender melhor o que está acontecendo na China e o que esses movimentos significam para o Brasil.
A infraestrutura continuará sendo indispensável. Navios precisam de portos, cargas precisam de terminais e empresas precisam de conexões eficientes. Mas infraestrutura, sozinha, responde ao que já está acontecendo.
A competitividade também está na capacidade de antecipar o próximo movimento.
É essa, para mim, a principal razão para estarmos em Xangai: transformar proximidade em informação, informação em decisão e decisão em novas oportunidades para o comércio exterior brasileiro.
Ricardo Arten. CEO do Porto Itapoá.