O que fica pelo caminho
“Às vezes as circunstâncias da viagem impedem olhar para os lados, tal a aflição para chegar ao destino. Traço metas para minha existência. Elas são os faróis que piscam no singrar dos mares. Sigo os fachos de luz nas tempestuosas madrugadas, ou na calmaria das águas, e miro no horizonte a costa em que quero aportar”
Mayte, desbravadora da Espanha, publicou um vídeo ao longo da estrada, onde chamava para a importância de se observar o que passa aos olhos no percurso. E sentenciou: “O caminho é tão relevante quanto o destino final”.
A frase, de aparente singeleza e obviedade, ficou latente em mim, por tanto que concordo com ela. Algumas das minhas melhores lembranças são paisagens captadas no meu afã de descortinar o mundo. Os dias, lá e cá, me brindam com o brilho do sol, o ventilar da relva, o frescor do orvalho, o reflexo do luar. Mas nem sempre é assim.
Às vezes as circunstâncias da viagem impedem olhar para os lados, tal a aflição para chegar ao destino. Traço metas para minha existência. Elas são os faróis que piscam no singrar dos mares. Sigo os fachos de luz nas tempestuosas madrugadas, ou na calmaria das águas, e miro no horizonte a costa em que quero aportar.
Mas a existência é um rumo que percorro aturdido para alcançar o destino. E quando chego, se chego, olho para trás e me dou conta do que ficou pelo caminho, sem saber se valeu à pena o esforço, ou se o destino era simples miragem no mar.
Não se percorre uma estrada sem deixar rastros, muitos dos quais não nos damos conta, como se viseiras tivéssemos nesse longo cavalgar. Rastros são mágoas, feridas, até quem talvez nos tivesse carregado e deixamos vencido. Ficam rastros também do bem que a alguém causamos, é certo, mas é fato o quanto a obstinação pelos objetivos deixa tudo espalhado ao largo do terreno vencido.
O que mais me surpreende é a ironia da caminhada. Passo tempos a fio cuidando do que me é predestinado, até relegando metas que deveria perseguir. E depois de tanto empenho, fraquejado feito náufrago impotente para as últimas braçadas, ou até por achar que já nadara demais, me estatelo na praia, destroço em que me transformo, e me penitencio pelos últimos momentos.
Verdadeiramente o que vale na longa viagem da vida não é o destino, este apenas anima a seguir em frente. Importante é o próprio caminho, que percorro às vezes errando por não tanto apreciar. Ou que, por infortúnio, descubro um dia que deixei pelo caminho quem eu devia carregar.
O destino? Ah, esse é fácil. Redunda com a palavra final. Aquele ao qual todos somos involuntariamente fadados a alcançar.