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Hudson Carvalho

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O que tem na geladeira?

Uma organização criativa não é aquela que nunca enfrenta restrições. É aquela que não transforma cada restrição em motivo para permanecer parada.

inha mãe, D. Ébe, diz que uma das tarefas mais difíceis de uma dona de casa é decidir o cardápio de cada dia.

É preciso variar. Um gosta de uma coisa, o outro não. Ontem teve carne. Anteontem, massa. Alguém não gosta de peixe. E amanhã começa tudo outra vez.

Agora imagine que, no meio disso, um filho apareça sem avisar:

— Oi, mãe. Vim almoçar!

A resposta imediata:

— Por que não avisou antes? Não tenho nada!

Algum tempo depois, porém, a mesa está posta.

Aparece uma salada, um arroz, alguma coisa congelada, uma massa improvisada. Aquele pedaço de queijo encontra uma utilidade. As sobras do dia anterior ganham uma segunda chance.

— Mãe, você não disse que não tinha nada?

— Fiz com o que tinha na geladeira.

Genial!

Aí está uma definição de criatividade que dificilmente encontraremos nos manuais. Ela não começa pelo que falta, mas pelo que está disponível.

A geladeira não recebeu novos ingredientes entre o “não tenho nada” e o almoço. Ninguém foi ao supermercado. O que produziu o resultado foi a atitude perante o desafio. Em vez de “o que está faltando?”, surge: “O que posso fazer com o que tenho?”

Essa mudança de perspectiva é relevante também para empresas. Em ambientes de restrição orçamentária, pressão por produtividade e transformação digital, a inovação, sempre necessária, não significa necessariamente inventar algo do zero.

Vamos inovar à partir do que já temos. Encontrar uma nova combinação para recursos, pessoas, informações e tecnologias que já existem.

Um ingrediente, sozinho, sempre será ele próprio. Mas, combinado com outro, usado de maneira diferente, recuperado do fundo de uma gaveta, passa a participar de algo que, minutos antes, não existia.

Inovação também é a capacidade de combinar melhor o que já está disponível.

A ideia para este artigo nasceu de uma conversa com meu amigo Julio Andery, publicitário, VP de Criação premiado no Brasil e no Exterior, com trajetória construída em algumas das principais agências brasileiras, Fundador e CEO da Lavanderya.

Uma ideia, sacada do turbilhão de boas ideias que Julio gera à velocidade da luz.

Enquanto pensava na provocação que ele me trouxe, lembrei-me de minha mãe e de sua eterna questão sobre o cardápio.

De um lado, alguém que fez da criatividade uma profissão. Do outro, alguém que a pratica há décadas sem precisar dar esse nome ao que faz.

Os dois me levaram à mesma geladeira. Há, porém, um cuidado importante nessa história, sem romantizar a escassez.

Geladeiras podem estar realmente vazias. Empresas podem não dispor do orçamento, das pessoas qualificadas, dos equipamentos ou do conhecimento necessários para realizar alguma coisa.

Entendo que as limitações não desaparecem apenas por entusiasmo, capacidade de improvisação ou pensamento positivo.

Mas, … reconhecer uma restrição é muito diferente de transformá-la automaticamente em impossibilidade de fazer. É nesse ponto que a busca pelas condições ideais, lamentavelmente, torna-se uma excelente justificativa para não começar.

Começaremos quando tivermos mais orçamento, mais gente, um novo equipamento, um novo sistema, mais informações. Quando houver tempo.

Algumas dessas necessidades são legítimas. Indispensáveis, talvez. A questão é descobrir quantas realmente impedem nosso primeiro movimento — e quantas apenas nos acostumamos a colocar diante dele.

A mãe não espera a geladeira ideal. Ela cozinha.

Algumas organizações sofrem além das limitações concretas que possuem. Somam, a esse sofrimento, a falta de imaginação sobre o uso daquilo que já possuem.

Teste sua equipe e perceberá que pessoas sabem fazer coisas que nunca lhes perguntamos se sabiam. Reveja um processo e perceberá que informações repousam em áreas diferentes sem jamais serem colocadas lado a lado.

Não é proibido partir do zero absoluto, mas, repito, estamos falando que criar alguma coisas a partir do que temos é muito efetivo. De olhar novamente, com outro olhar

Nas organizações, isso significa fazer perguntas diferentes diante dos mesmos recursos:

Quem mais poderia contribuir?

Que processo pode ser combinado com outro?

Que solução já existe, mas ainda não foi aplicada?

O que podemos testar em pequena escala, antes de esperar pelas condições perfeitas?

Começamos com o que está à mão e o caminho, nos mostra o que mais será necessário.

Uma organização criativa não é aquela que nunca enfrenta restrições. É aquela que não transforma cada restrição em motivo para permanecer parada.

A mesa está posta. E, quando todos se sentam para comer, ninguém está mais discutindo o cardápio que poderia ter sido feito. Estão almoçando.

Talvez seja esse o teste mais simples para uma ideia dentro de uma organização: ela ficou apenas na conversa ou já chegou à mesa?

Antes de concluir que falta alguma coisa, abra a geladeira mais uma vez. Depois, comece a cozinhar.

Hudson Carvalho é diretor-executivo da BE Academy, consultor em Estratégia de Gestão de Pessoas e especialista em liderança, cultura organizacional e desenvolvimento executivo. Ele escreve semanalmente para o BE News, com seus artigos sendo publicados às segundas-feira.

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