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Patrícia Lia Brentano

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O Renascimento Marítimo Portuário Americano

Durante décadas, os Estados Unidos observaram sua indústria marítima encolher em silêncio. Hoje, esse cenário muda de forma acelerada, e o mercado financeiro começa a prestar atenção.

Um estudo publicado em maio de 2026 pelo J.P. Morgan Research, Turning the Tide: Revitalizing the US Shipbuilding Industry, traça um diagnóstico preciso: os EUA respondem por US$ 5,6 trilhões em comércio anual de bens, com 75% a 80% do volume transportado por mar, mas menos de 1% da frota mercante global navega sob bandeira americana. A comparação é reveladora: enquanto os Estados Unidos operam cerca de 190 embarcações mercantes registradas, muitas delas construídas no exterior, a China mantém uma frota superior a 7.000 navios.

Essa assimetria, tolerada por décadas em nome da eficiência do comércio global, passou a ser vista como uma vulnerabilidade estratégica após a pandemia, a guerra na Ucrânia e o aumento das tensões geopolíticas com a China. A resposta de Washington veio em etapas: o Congresso reintroduziu o SHIPS for America Act em 2025, com a meta de ampliar a frota americana em 250 navios ao longo de dez anos. Em 2026, a administração americana lançou o Maritime Action Plan, com foco em investimentos em estaleiros, redução de entraves regulatórios e requalificação de mão de obra. Paralelamente, o próprio J.P. Morgan anunciou um plano de US$ 1,5 trilhão ao longo de uma década, para financiar indústrias críticas à segurança econômica nacional, com a construção naval entre os setores prioritários.

No centro desse rearranjo estratégico, está um ativo de referência: o Maher Terminals, em Elizabeth, Nova Jersey. Com 1.821.006 m² às margens do principal porto da Costa Leste americana, o terminal processou mais de 3 milhões de TEUs em 2024, respondendo por mais de um terço de todo o tráfego de contêineres do Porto de Nova York/Nova Jersey, que movimentou US$ 264 bilhões em mercadorias no período. Trata-se do terminal individual mais movimentado do complexo e, de forma particularmente relevante, o único não controlado por um armador oceânico, o que lhe confere um modelo multiusuário raro e estrategicamente valioso no mercado americano.

Em dezembro de 2025, a Port Authority de Nova York e Nova Jersey renovou a concessão do Maher por 33 anos, garantindo sua operação até setembro de 2063. Essa extensão funcionou como gatilho para o processo de venda: a Macquarie Asset Management, que controla o ativo por meio de um fundo de infraestrutura com vencimento previsto para 2030, iniciou conversas com potenciais compradores. O valor estimado da transação supera US$ 3 bilhões, e fontes familiarizadas com o processo indicam que pode ultrapassar esse patamar. Para efeito de comparação, o terminal GCT, com aproximadamente metade da capacidade do Maher, foi vendido à CMA CGM por cerca de US$ 3 bilhões em 2023. A NYK Line, do Japão, detentora de 20% do Maher, também integra a equação da transação.

O interesse de potenciais compradores é amplo e qualificado. MSC, Hapag-Lloyd, PSA International, DP World, SSA Marine e Terminal Investment Limited já sinalizaram disposição de negociar, enquanto a BlackRock, com cerca de US$ 11 trilhões sob gestão e presença crescente em infraestrutura marítima global, também desponta como candidata relevante. Qualquer transação exigirá aprovação da autoridade portuária local, e o novo proprietário herdará a necessidade de realizar investimentos bilionários em modernização de berços, guindastes e equipamentos de pátio para manter a competitividade operacional do terminal.

É nesse contexto que o papel de especialistas com profundo conhecimento operacional portuário se torna decisivo. Fundos de infraestrutura e bancos de investimento assessorando potenciais compradores precisam responder a perguntas que vão além dos modelos financeiros tradicionais: qual é o real potencial de expansão de capacidade do terminal, como o modelo multiusuário se comporta em cenários de consolidação de alianças de armadores e qual o impacto de mudanças recentes no fluxo comercial (como a retração das exportações chinesas para os EUA) sobre a dinâmica de demanda da Costa Leste. Nenhuma dessas respostas está plenamente refletida em bases de dados públicas, e todas exigem entendimento operacional, domínio regulatório e visão integrada das transformações da cadeia logística global.

Do ponto de vista de quem acompanha operações portuárias e investimentos em infraestrutura, a venda do Maher não é apenas uma transação de infraestrutura. Trata-se de um termômetro da disposição americana em recompor sua soberania logística e, ao mesmo tempo, de um sinal claro de como o capital global está se reposicionando em torno de ativos portuários estratégicos. Para fundos e instituições financeiras que pretendem participar desse novo ciclo, a questão central deixa de ser a existência de oportunidade e passa a ser a capacidade de acessar conhecimento qualificado para navegar um ambiente cada vez mais técnico, competitivo e geopoliticamente sensível.

Patrícia Lia Brentano escreve quinzenalmente para o BE News.

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