O RH deve ser a consciência da empresa
“A consciência é uma pequena lanterna que a solidão acende à noite.”
Madame de Staël, ou Anne-Louise-Germaine Necker (1766 – 1817), crítica literária, filósofa, política e escritora francesa do Iluminismo.
Gostaria que “Madame”, que viveu na Corte de Luís XVI e ainda assim teve coragem para confrontar Napoleão, e o poder de influenciar definitivamente a literatura francesa, tivesse dito que a consciência é um enorme farol que, aceso plenamente, não nos deixa dormir, tal a claridade que emana.
Assim deveriam ser as “consciências” e os conscientes.
Tenho o privilégio de (ainda) estar construindo uma carreira na Área em Recursos Humanos, desde 1998. Algo parecido com a construção da Catedral da Sagrada Família em Barcelona: não acaba nunca.
Mas devo confessar: os 12 anos anteriores, em que fui Engenheiro, me mantem um profissional muito crítico de mim mesmo e da atuação dos meus atuais Colegas.
Empresas que fazem a boa gestão de pessoas tem melhores resultados nos negócios? Sim. Mas quero ver os processos de trabalhos organizados, as metas e os seus indicadores mostrando esses resultados e quanto as pessoas realmente contribuíram para que eles existissem. Quero ver os planos e os números.
Nesses 27 anos, vi o antigo Departamento Pessoal transformar-se em RH, o RH em “Área de Gente” e por aí vai. O nome, sinceramente, pouco importa, se não houver respeito e consideração pelas pessoas. Ouvi-las e levar em conta o que dizem, saber o que sentem e por que sentem. Por que possuem determinado comportamento?
É isso que realmente importa, faz a diferença e transforma o RH, ou seja qual for o nome que dermos a ele, em uma área de atuação estratégica dentro de uma organização.
Ouço o mantra “o RH tem que ser estratégico”, repetido várias e várias vezes. Mas vejo pouca ação dos próprios profissionais de RH nesse sentido. Só será considerado estratégico, quem realmente for. Enquanto o “RH” não entender de verdade do negócio, dos processos de trabalho de todas as demais áreas, quem compra os produtos e serviços da empresa e por que, não passará de um ente tático, ou operacional. É pouco.
Fico ainda mais incomodado porque sinto que essa “fase estratégica” do RH já deveria estar superada. Deveria ser condição normal de atuação.
Meu olhar está apontado para o que considero ser o próximo passo na construção da história de quem tem a responsabilidade de gerir as pessoas de uma organização (perceba que estou evitando dar nome).
O RH como “consciência da organização”. Sim, consciência. Aquele grupo de pessoas que ajuda a empresa a lembrar quem ela é, quais são seus valores reais — e não apenas os que estão em quadros nas paredes.
Isso é força verdadeira, poder, que contribui num ambiente de negócios onde a governança deve ser a espinha dorsal da organização.
O RH que imagino observa, escuta, percebe o que acontece nos bastidores e nas entrelinhas. Entende que cada política ou procedimento – seja de que área funcional for – impacta diretamente a cultura, o clima, o engajamento e, por consequência, os resultados.
O RH-Consciência pratica e estimula atitudes como:
- Dizer “isso não é certo” quando algo fere os princípios da empresa;
- Recusar a normalização de práticas tóxicas, mesmo que sejam antigas;
- Usar dados não para rotular, mas para entender e agir com clareza;
- Preparar líderes, mas também confrontá-los quando necessário;
- Ser empático, sem ser omisso.
Esse papel não existirá por mágica, apenas colocando-se um nome no crachá. Será construído todos os dias: no jeito de ouvir, de se posicionar, de agir com presença e intenção.
RH que é consciência não precisa de autorização para existir — se manifesta porque sabe que tem responsabilidade ética com as pessoas e com o negócio. Mesmo que fosse excluído do organograma da empresa, continuaria a existir no coração e na mente de todos, em especial nos da liderança.
Não se trata de ter um papel superior ou “mais nobre”. Mas sim de assumir o lugar de quem lembra, constantemente, que uma empresa é feita de pessoas por pessoas e para pessoas.
É isso que define quem somos ou deixamos de ser.
Hudson Carvalho é Consultor em Estratégia de Gestão de Pessoas, Diretor Regional da WISDOM – Gestão Organizacional (Desenvolvemos Pessoas e Processos) para o ABCD e Baixada Santista e Diretor Executivo da ELABORE-ONLINE – Pessoas e Resultados.
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