O tiro trumpista que ameaça a estabilidade global
Thiago Ferrarezi. Advogado e engenheiro. Especialista em Ciência Política. Mestre em Políticas Públicas e Planejamento Urbano. Doutorando em Inteligência Artificial.
O ponto central é inequívoco: criticar a operação não é defender Maduro. Todos reconhecem a ilegitimidade, a repressão e o esgotamento do chavismo. O alerta é mais profundo. Quando a força substitui as regras, quando a democracia vira retórica para justificar poder e recursos, o sistema internacional inteiro se fragiliza.
Hoje, algo incomum aconteceu no debate internacional: cinco dos jornais mais influentes do mundo, a partir de tradições editoriais muito distintas, publicaram editoriais convergentes no alerta sobre a captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos sob o comando de Donald Trump.
As conclusões variam no tom — mas coincidem no risco sistêmico.
O The Washington Post reconhece o sucesso tático da operação, mas adverte que a vitória será vazia se resultar em continuidade autoritária sob outro nome ou em tutela estrangeira disfarçada de transição. Democracia não sobrevive ao improviso nem ao cinismo geopolítico.
O Financial Times é mais frio e direto: ao capturar Maduro e declarar que “governará” a Venezuela, Trump assumiu a responsabilidade integral pelo desfecho. A história recente mostra que mudanças de regime sem legitimidade produzem caos, atoleiros militares e efeitos regionais imprevisíveis. Quem derruba, passa a ser dono das consequências.
O The New York Times vai além e classifica a operação como ilegal e perigosa. Sem autorização do Congresso e à margem do Direito Internacional, o ato corrói normas que os próprios EUA ajudaram a construir no pós-1945 — criando precedentes que autoritários ao redor do mundo saberão explorar.
A leitura europeia, publicada hoje, aprofunda o diagnóstico.
O Diario El País alerta para o duplo risco: vender uma operação militar ilegal como libertação democrática e, simultaneamente, oferecer ao chavismo o álibi perfeito para militarizar o país e justificar repressão ilimitada. A democracia, lembra o jornal, não é exportada por míssil — e muito menos sob tutela estrangeira.
Já o Le Monde é explícito ao falar no retorno do imperialismo predatório: força militar, desprezo pelas regras multilaterais e discurso aberto sobre petróleo. O Direito Internacional — e a própria Constituição americana — surgem como vítimas colaterais.
O ponto central é inequívoco: criticar a operação não é defender Maduro. Todos reconhecem a ilegitimidade, a repressão e o esgotamento do chavismo. O alerta é mais profundo.
Quando a força substitui as regras, quando a democracia vira retórica para justificar poder e recursos, o sistema internacional inteiro se fragiliza. Hoje é a Venezuela. Amanhã, qualquer outro país considerado “quintal”, “ameaça” ou “ativo estratégico”.
A história ensina: não há democracia sem regras, nem regras sem contenção do poder. E quando até as grandes democracias começam a relativizar isso, o problema deixa de ser regional. Passa a ser global. Para a América Latina — e para o Brasil de Luiz Inácio Lula da Silva — o desafio é claro: defender a legitimidade democrática sem normalizar a exceção, reafirmando soberania, multilateralismo e solução pacífica.
Em tempos de tiros e bravatas, estabilidade se constrói com regras, não com força.