terça-feira, 06 de outubro de 2026
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Opinião

Editorial

O Trilho da Sustentabilidade e da Soberania Logística

A infraestrutura brasileira vive um paradoxo que exige coragem e pragmatismo das instituições: ao mesmo tempo em que o País sela parcerias estratégicas globais, como o recente plano de ação firmado com a Coreia do Sul para elevar o agronegócio a patamares tecnológicos superiores, projetos estruturantes internos enfrentam resistências que, sob o manto da cautela, podem condenar o meio ambiente e a economia ao atraso. O pedido de suspensão da ferrovia EF-170, a Ferrogrão, formalizado pelo Tribunal de Contas da União (TCU), é um desses momentos críticos em que a burocracia corre o risco de atropelar a lógica da sustentabilidade.

Não construir a Ferrogrão é, como alertou o secretário nacional de Transporte Ferroviário, Leonardo Cezar Ribeiro, a pior alternativa ambiental possível. A produção pujante do Centro-Oeste não deixará de ser escoada; na ausência dos trilhos, ela continuará sobrecarregando rodovias, gerando o predatório efeito “espinha de peixe” — onde ramificações desordenadas rasgam a floresta para dar suporte a caminhões. A ferrovia, ao contrário, oferece um traçado confinado, com menor impacto territorial e uma redução drástica na emissão de poluentes. Optar pelo modal rodoviário em vez do ferroviário é escolher a ineficiência energética e o desmatamento indireto.

A urgência da Ferrogrão transcende o debate ambiental e toca o cerne da competitividade nacional. Com uma redução prevista de mais de 30% nos custos de frete, o projeto é a espinha dorsal do Arco Norte, plano estratégico para conectar o Mato Grosso aos mercados da Europa e da China com agilidade inédita. Contudo, essa ambição esbarra em um ambiente de insegurança jurídica que afugenta o “apetite” dos investidores mencionados pelo Ministério dos Transportes. O episódio de ocupação do terminal da Cargill em Santarém é o exemplo vivo de como a falta de autoridade e o desrespeito às decisões judiciais fragilizam a imagem do Brasil no exterior.

É fundamental que o TCU e o Governo Federal encontrem um ponto de equilíbrio célere. O debate social e a consulta às comunidades indígenas são etapas inalienáveis e garantidas por lei, mas não podem ser utilizadas como ferramentas de paralisia perpétua. O projeto já passou por dois anos de atualizações e análises de custo-benefício que comprovam sua viabilidade. Suspender o leilão previsto para setembro é adiar a modernização de um sistema que hoje depende de estradas precárias e portos sob constante ameaça de invasões.

Para que a parceria estratégica com nações como a Coreia do Sul gere frutos, o Brasil precisa entregar logística. De nada servem hospitais inteligentes ou acordos aeroespaciais se o grão brasileiro ficar retido em atoleiros ou terminais ocupados. A implantação da Ferrogrão é a resposta definitiva para integrar o “Brasil profundo” ao mercado global de forma limpa, barata e segura. O governo e os órgãos de controle devem agir em sintonia para que o trilho do progresso não seja interrompido por interpretações que, ao tentarem proteger a floresta, acabam por entregá-la à degradação do modelo rodoviário.

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