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Ocupar espaços é mais do que aparecer

Aparecer é relativamente fácil. Permanecer relevante dentro da sala é outra história. Ter um cargo de liderança não significa que a sua trajetória deve ficar estagnada nele. É preciso continuar assumindo responsabilidades, ampliando repertório e exercendo, de fato, o papel de líder.

“Quem não ocupa espaços corre o risco de evoluir menos.” Essa é uma frase que eu poderia ter proferido tranquilamente. Mas quem o fez foi Marcelo Tangioni, presidente da Mastercard Brasil, em entrevista ao Valor Econômico. Em tempos de tecnologia acelerada e incertezas quanto ao futuro das lideranças, ele trouxe para o debate um importante componente do capital profissional: o ato de ocupar os espaços certos.

Por ser algo, digamos, intangível, a maioria das pessoas acaba relegando essa parte do desenvolvimento profissional. Ou então, faz isso sem uma estratégia definida, transformando a emenda em algo pior que o soneto. A ideia — disseminada erroneamente, em grande parte, no ambiente digital — de que basta estar em todos os lugares para que sua presença se torne relevante tem colocado muitas reputações em xeque.

Quando falo em ocupar espaços, não se trata de estar nos principais eventos do seu setor. Ou então de ser confundido com a mobília do escritório por parecer não ter vida além do trabalho. Se fosse assim tão simples, não teríamos tantos problemas de liderança dentro das empresas nem tanta escassez de boas ideias. Ocupar espaços é assumir protagonismo, influenciar decisões e assumir responsabilidades.

O líder precisa tornar sua contribuição visível. Isso não significa dominar as conversas sem dar espaço para a escuta. Ter uma presença efetiva significa desenvolver habilidades que vão além de apresentar organogramas e frameworks. Quem se posiciona estrategicamente constrói autoridade no curto, médio e, principalmente, no longo prazo, conquista a confiança dos stakeholders e amplia sua participação em oportunidades, além de aumentar as chances de ter sua voz ouvida em outras mesas de decisão.

Como fazer isso na prática? Comece fazendo uma avaliação honesta da sua carreira, mapeando suas competências e seus pontos a melhorar. Peça feedbacks sobre como as pessoas enxergam você. Identifique como tem gerenciado sua marca pessoal em aspectos como marketing pessoal, rede de relacionamentos e atualização sobre o mercado.

Outro aspecto importante é a adaptabilidade e a leitura de ambiente. Uma pergunta que faz diferença é: “o que esse cenário pede de mim?”. Isso envolve preparação para apresentar suas ideias com clareza e se fazer entender pelo público. E envolve ouvir. 

Para ocupar espaços, é necessário estar aberto à diversidade de opiniões, objeções e perspectivas que podem mudar a forma como determinada situação está sendo conduzida. Há momentos em que a melhor contribuição será defender uma ideia. Em outros, será fazer uma pergunta que ninguém fez. Ou reconhecer que outra pessoa tem mais repertório para conduzir aquela discussão.

Dessa forma, você também abre espaços. Um bom líder é aquele que conduz as pessoas ao seu redor e ajuda a formar novos líderes. Se o seu objetivo é sentar-se em outras mesas, quem estará preparado para ocupar a sua? Atitudes assim contribuem para tirar de cena a visão equivocada de que, para ser líder, é preciso ser autoritário. Por meio de bons exemplos, ficará cada vez mais claro que ocupar espaços não se trata de concentração de poder.

Liderança exige iniciativa e responsabilidade. Guiar pessoas não é esperar que alguém diga exatamente o que deve ser feito. Muitas vezes, é perceber um problema antes que ele chegue oficialmente à sua mesa. É levar uma possível solução junto com a questão. É assumir uma decisão e as consequências dela.

Esse ponto é especialmente importante porque muitas carreiras estacionam pela espera constante por autorização. Quando percebe, passou anos sendo muito boa naquilo que fazia, mas pouco presente nos momentos em que novas possibilidades estavam sendo construídas. Se você quer ser lembrado para participar da reunião na sala ao lado e de decisões mais importantes, precisa mostrar que seu posicionamento vai além do óbvio.

Ocupar espaços tem mais relação com estar preparado para fazer algo relevante quando esses espaços surgem. Aparecer é relativamente fácil. Permanecer relevante dentro da sala é outra história. Ter um cargo de liderança não significa que a sua trajetória deve ficar estagnada nele. É preciso continuar assumindo responsabilidades, ampliando repertório e exercendo, de fato, o papel de líder.

Não tenha receio de participar dos ambientes em que sua capacidade pode ser novamente testada, percebida e ampliada. Carreira também se desenvolve assim: entrando em espaços que exigem um pouco mais de você do que aquilo que já sabe fazer hoje. Uma das habilidades do futuro é a capacidade de mobilizar ideias e pessoas. Seja o líder capaz de ocupar espaços e transformar o seu setor.

Clara Laface escreve para o BE News semanalmente, com seus artigos publicados sempre às terças-feiras.

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