Offshore wind não começa pela turbina: começa pela indústria
O Brasil tem condições de olhar para offshore wind não apenas como uma nova fonte de eletricidade, mas como uma oportunidade de desenvolvimento industrial marítimo. E isso exige planejamento antes da escala comercial.
Quando olhamos para um parque eólico offshore, enxergamos turbinas. São elas que dominam as fotografias, aparecem nos mapas dos projetos e transformam o vento em eletricidade. Mas, do ponto de vista econômico e industrial, talvez sejam justamente a parte mais visível de uma cadeia muito maior.
Antes que uma turbina comece a girar no mar, engenheiros projetaram estruturas, fábricas produziram componentes, portos receberam equipamentos, guindastes realizaram içamentos, embarcações foram mobilizadas, cabos foram instalados e milhares de pessoas participaram de uma complexa operação industrial e marítima.
Por isso, se o Brasil quiser transformar seu enorme potencial eólico offshore em desenvolvimento econômico, a discussão não pode começar apenas por quantos gigawatts serão instalados. Precisamos discutir quem será capaz de construí-los.
Uma indústria antes dos gigawatts
Um parque offshore comercial envolve componentes de dimensões extraordinárias. Turbinas modernas já ultrapassam 15 MW. Pás podem ter mais de 100 metros. Torres, fundações, plataformas flutuantes, cabos submarinos e subestações exigem capacidades industriais e logísticas específicas.
Não basta possuir fábricas. É necessário conectar fabricação, transporte, armazenamento, montagem e instalação.
É aqui que portos deixam de ser apenas pontos de passagem e passam a funcionar como verdadeiras fábricas à beira-mar.
Áreas extensas de armazenamento, capacidade de carga dos cais, calado, acessos terrestres, equipamentos de movimentação e disponibilidade de áreas para integração tornam-se parte da equação econômica de um projeto.
E, depois do porto, começa outra cadeia: a das operações marítimas. Rebocadores, embarcações de apoio, navios de instalação, sistemas de posicionamento, operações de ancoragem, inspeções, logística offshore, monitoramento meteorológico e coordenação marítima precisam funcionar de maneira integrada.
A competitividade de um parque offshore é, portanto, resultado de um sistema industrial inteiro.
Mas significa que o Brasil não precisa construir sua nova indústria a partir de uma folha em branco.
O Brasil não começa do zero
Essa talvez seja uma das maiores vantagens brasileiras.
Ainda não temos turbinas eólicas operando offshore, mas temos décadas de experiência construindo e operando no mar.
A indústria de óleo e gás desenvolveu no País competências em engenharia oceânica, estruturas offshore, construção naval, portos, logística marítima, sistemas submarinos, ancoragem, inspeção, segurança e operação em ambientes complexos.
Também possuímos universidades, centros de pesquisa, empresas de engenharia e profissionais com experiência internacional.
Isso não significa que a cadeia de petróleo e gás possa simplesmente ser transferida para a eólica offshore. As escalas de produção são diferentes. Os modelos econômicos são diferentes. Os equipamentos são diferentes. E uma indústria que pretende instalar dezenas ou centenas de turbinas precisará incorporar conceitos de padronização, modularização e produção seriada que nem sempre fazem parte da lógica de grandes projetos offshore tradicionais.
O desafio é identificar quais competências existentes podem ser aproveitadas e quais precisam ser criadas.
Conteúdo local ou competitividade?
É nesse ponto que surge inevitavelmente a discussão sobre conteúdo local. Talvez a pergunta mais útil não seja simplesmente qual percentual de um parque deverá ser produzido no Brasil. A pergunta deveria ser: quais capacidades queremos que permaneçam no País depois que o primeiro parque terminar de ser construído?
Há uma diferença importante entre exigir conteúdo local e desenvolver uma cadeia local competitiva.
Produzir determinado componente no Brasil apenas para cumprir um índice pode aumentar custos sem necessariamente criar uma indústria sustentável. Por outro lado, importar praticamente todo o sistema pode resultar em geração de energia sem capturar parte relevante da oportunidade industrial. O equilíbrio está em identificar onde o Brasil possui — ou pode desenvolver — vantagens competitivas reais.
Estruturas de aço e concreto, fabricação naval, cabos, serviços de engenharia, logística, operações marítimas, portos, monitoramento ambiental, inspeção e manutenção são alguns dos segmentos que merecem ser analisados sob essa perspectiva.
A ambição deveria ser maior do que atender ao primeiro projeto. Deveríamos construir fornecedores capazes de atender ao segundo, ao décimo e, eventualmente, também a projetos fora do Brasil.
Projetar para aquilo que podemos construir
Há ainda outra dimensão dessa discussão.
Normalmente pensamos que a indústria deve se adaptar à tecnologia escolhida. Mas também podemos inverter essa lógica. Tecnologias offshore destinadas ao Brasil deveriam considerar desde o início nossa infraestrutura industrial, nossos portos, nossas capacidades de fabricação e nossa logística.
Isso é particularmente importante na eólica offshore flutuante, onde diferentes conceitos de plataforma podem exigir estratégias completamente distintas de fabricação, montagem e instalação.
Uma solução tecnicamente sofisticada, mas incompatível com a infraestrutura disponível, pode exigir investimentos adicionais que comprometem sua competitividade.
Engenharia e industrialização, portanto, não deveriam ser etapas separadas.
A maneira como uma estrutura será fabricada, transportada, montada, instalada e mantida precisa fazer parte do projeto desde suas primeiras decisões.
Uma oportunidade que vai além da energia
O Brasil tem condições de olhar para offshore wind não apenas como uma nova fonte de eletricidade, mas como uma oportunidade de desenvolvimento industrial marítimo. E isso exige planejamento antes da escala comercial.
Projetos-piloto podem qualificar fornecedores. Portos podem começar a mapear e adaptar sua infraestrutura. Estaleiros podem avaliar novas linhas de produção. Empresas marítimas podem desenvolver procedimentos e equipamentos. Universidades podem formar profissionais. E a indústria pode identificar onde realmente consegue competir.
Quando chegarem os grandes projetos, essa preparação fará diferença. Porque instalar milhares de megawatts no mar será apenas uma parte do desafio. A outra será garantir que cada novo gigawatt também movimente engenharia, portos, estaleiros, empresas e profissionais brasileiros.
No fim, uma turbina offshore produz eletricidade.
A cadeia que construímos ao redor dela é que pode produzir uma nova indústria.
Rodolfo Gonçalves escreve quinzenalmente no BE News, com seus artigos sendo publicados às sextas-feiras.