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Luiz Dias Guimarães

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Olhos de enxergar

“Procuro aprimorar minha empatia, já que não cresci na Dinamarca, onde há aulas de empatia nas escolas, obrigatórias no currículo nacional. O rapaz simples que ajudara o homem talvez nem saiba onde fica a Dinamarca, mas praticou o que muitas vezes falta aos demais. Assim é no cotidiano das ruas, até das casas onde paira cada vez mais o silêncio de vozes que dizem se amar”

O homem erguia o braço direito sistematicamente, no ponto de ônibus. Seu gesto mecânico, a cada cinco segundos, não parecia um exercício. Era o esforço de chamar à parada qualquer ônibus que passasse. Esperança de que a insistência vencesse o impedimento de ver. A mão esquerda denunciava o infortúnio. Uma fina bengala metálica era a senha daquele homem, parado no caminho dos passantes e, ainda que  seu gesto e sua varinha o denunciassem aos outros, ninguém parecia se abalar com a cena.

Até que um jovem simples como o homem se aproximou. Vi à distância um breve diálogo. O rapaz conduziu o homem até a sombra e postou-se à beira da calçada, espreitando os ônibus que chegavam. Até que sinalizou para um e, apressado, buscou o homem, ajudando-o a subir no veículo.

O homem seguiu seu destino. O jovem esperou o dele. E eu, da minha distante sacada, tive vontade de gritar ‘valeu’! Mas contive meu ímpeto e fiquei a pensar no quanto o rapaz ganhara o dia. E o quanto o homem lucrou por encontrar quem o enxergasse e emprestasse seus olhos ao desafortunado.

Em outro ponto, que rotineiramente frequento, há uma moça que sempre às 16 horas embarca com sua varinha na mão e seu sorriso na boca. Há sempre quem a oriente e ajude a embarcar. Os motoristas já estão acostumados com ela, que pode diariamente ganhar o seu dia com segurança de voltar para casa.

Uma vez fiquei contando quantas paradas o ônibus fazia em pontos e semáforos até que chegasse o ponto dela descer. Será que é isso que fazem para saber quando desembarcar? Mas pensei: às vezes o semáforo está aberto, outras o ônibus segue sem ter quem deixar ou embarcar num ponto, e aí a contagem se desorganiza.

Mas a acuidade da moça deve lhe garantir grande chance de acerto, pelo tempo que sente o veículo em movimento. Não sei. Na verdade nunca me interessei em saber, sequer conversar com ela ou outro qualquer para compreender os desafios de sua vida.

Talvez eu seja como muitos, como aqueles que passaram ao largo do homem que sistematicamente erguia o braço. Procuro aprimorar minha empatia, já que não cresci na Dinamarca, onde há aulas de empatia nas escolas, obrigatórias no currículo nacional. O rapaz simples que ajudara o homem talvez nem saiba onde fica a Dinamarca, mas praticou o que muitas vezes falta aos demais. Assim é no cotidiano das ruas, até das casas onde paira cada vez mais o silêncio de vozes que dizem se amar.

Assim é também no trabalho, onde cada qual busca disfarçar suas mazelas pessoais e, sem demonstrar, tenta dar conta do seu sustento. Lembro que no meu primeiro emprego, numa empresa norte-americana, havia um gerente que nos mais jovens e inseguros, causava verdadeiro arrepio, noviços que éramos diante da diversidade dos seres. Ele chegava diariamente a passos largos, olhando para o chão com seu olhos escondidos atrás de lentes escuras, e trancava-se em seu gabinete como quem iria salvar o mundo ou decapitar alguém.

Mal sabia ele que seríamos bem mais felizes naqueles tempos se cumprimentasse a todos. Ah, que dias iluminados teríamos, quando nos preparávamos para compreender a importância do ânimo em nossas vidas.

Certa vez o Papa Francisco aconselhou: “Sempre que possível, dê um sorriso a um estranho na rua. Pode ser o único gesto de amor que ele verá no dia”. Talvez a ausência da empatia e de gestos gentis reflita a verdadeira cegueira. Pois os olhos de ver não são necessariamente os olhos de enxergar.

 

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