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João Eduardo de Villemor Amaral Ayres e Rebecca Alonso Nascimento

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Onde o dinheiro some: como o “value gap” aparece na prática em ativos e projetos

Conforme tratamos no nosso artigo anterior, o Global Circularity Gap Report 2026 nos deixou com um número difícil de ignorar: 25,4 trilhões de euros em valor econômico perdido por ano em razão de um modelo ainda profundamente linear. Na última publicação aqui nesse portal, olhamos para esse “rombo” em escala macro: um terço da riqueza produzida que se perde entre desperdícios, subutilização de ativos e custos ambientais e sociais que não entram na conta. Agora, vale dar um passo a mais e perguntar: onde, exatamente, esse dinheiro some quando olhamos para ativos, projetos e decisões concretas?

A primeira pista está nas perdas de processamento. Em qualquer cadeia industrial, dos setores intensivos em recursos naturais à manufatura de alta tecnologia, matéria-prima que não vira produto é valor que evapora. Rendimentos baixos, especificações mal calibradas, processos pouco padronizados e falta de reaproveitamento de refugos significam jogar fora recursos que já foram extraídos, transportados e, muitas vezes, parcialmente transformados. Quando somamos isso em cadeias longas – minério que vira aço, que vira componente, que vira equipamento – o efeito multiplicador dessas perdas fica evidente.

A segunda frente é a energia. O relatório lembra que mais da metade da energia primária se perde antes de entregar qualquer serviço útil. Em ativos de infraestrutura, isso aparece em linhas de transmissão ineficientes, sistemas de bombeamento superdimensionados, edificações mal projetadas em termos térmicos, frotas que rodam em condições muito aquém do que a engenharia permitiria. Energia paga e não aproveitada é valor destruído, mesmo quando a conta de luz está em dia. E, em um contexto de transição energética, cada kWh desperdiçado implica mais pressão sobre a expansão da oferta, mais investimentos necessários e mais impactos ambientais associados.

O terceiro caminho é conhecido, mas ainda subestimado: perdas e desperdício de alimentos. Em países exportadores de commodities agrícolas, como o Brasil, isso começa na porteira – colheita, armazenagem, transporte – e segue por toda a cadeia de processamento, distribuição e consumo. Cada tonelada de alimento que não chega ao prato carrega consigo terra, água, insumos, energia, logística e capital imobilizado. Quando pensamos em infraestrutura de armazenagem, cadeias frias, terminais logísticos e gestão de estoques, fica claro que reduzir perdas alimentares é também uma agenda de eficiência econômica e de investimento bem feito, não apenas uma pauta social e ambiental.

O quarto vetor de perda é o fim de vida dos produtos e ativos. Aqui a conversa entra diretamente no mundo dos projetos e da gestão de ativos: quantos equipamentos são trocados por padrão antes do fim de sua vida útil? Quantos edifícios passam por reformas profundas muito antes do necessário porque não foram pensados para adaptação e retrofit? Quantas infraestruturas lineares – estradas, sistemas de água, redes de esgoto – são operadas em regime de “deixa rodar até quebrar”, sem uma estratégia de extensão de vida útil e reuso de componentes? Cada ativo descartado antes da hora é valor contábil que vira perda, mesmo quando a substituição é registrada como novo investimento.

Por fim, a depreciação de capital fixo fecha o quadro. Todo ativo de longa duração se deteriora, mas a velocidade e a intensidade dessa perda de valor não são “leis da física”: dependem de qualidade de projeto, especificação de materiais, manutenção, nível de utilização, contexto urbano ou ambiental. Um edifício que envelhece mal porque foi construído com materiais inadequados para o clima local, uma rodovia que demanda recapeamento em intervalos muito menores do que o previsto, uma planta industrial que precisa de reformas recorrentes porque não foi pensada para layouts flexíveis – tudo isso são exemplos de depreciação acelerada que, no agregado, alimenta o tal gap de valor.

Vista por esse ângulo, a agenda do “value gap” deixa de ser abstrata e passa a se traduzir em decisões muito concretas que tomamos todos os dias: qual especificação técnica aprovamos em um edital, que critérios usamos para escolher entre duas alternativas de projeto, como estruturamos contratos de concessão e PPPs, quais indicadores usamos para decidir o momento de substituir um ativo. Em todos esses pontos, há escolhas que tendem a reforçar a lógica linear – privilegiando menor CAPEX imediato, mesmo que ao custo de maior OPEX e depreciação acelerada – e escolhas que abrem espaço para circularidade, preservação de valor e resiliência.

Para financiadores e gestores de risco, isso também muda o jogo. Em vez de olhar apenas para fluxo de caixa, taxa interna de retorno e garantias tradicionais, começa a fazer sentido perguntar: quanto valor esse projeto tende a preservar ou destruir ao longo do tempo? Quão exposto ele está a perdas de processamento, desperdício de energia, obsolescência prematura e depreciação acelerada? Projetos que integram desde o início princípios de economia circular – como modularidade, possibilidade de retrofit, reuso de componentes, eficiência energética real e cadeias reversas organizadas – tendem a oferecer perfis de risco diferentes, ainda que, no curto prazo, pareçam mais complexos de estruturar.

Se o primeiro artigo desta série mostrou o tamanho do rombo, este segundo é um convite a seguir o rastro do dinheiro dentro das cadeias reais de valor. No próximo, podemos dar mais um passo e discutir caminhos práticos para reverter esse quadro – seja pela via regulatória, fiscal e de políticas públicas, seja pela via de modelos de negócios e instrumentos de financiamento que remunerem, de fato, quem reduz o value gap em vez de simplesmente conviver com ele.

João Eduardo de Villemor Amaral Ayres e Rebecca Alonso Nascimento escrevem quinzenalmente para o BE News.

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