Oportunidades e visão estratégica
Há pouco mais de dez anos, considerei a possibilidade de implantação de um estaleiro de manutenção no Porto de Santos (SP). Cheguei a orientar um trabalho de conclusão de curso de Engenharia Civil sobre o tema.
Não era uma novidade, pois já havia um projeto de terminal de uso privado que previa um estaleiro de manutenção em seu escopo, na Ilha dos Bagres. Fazia sentido, porque já ouvira falar que, para o Porto de Santos alcançar o status de complexo de classe internacional, só lhe falta um estaleiro. Atualmente, danos mais graves ou manutenções de maior porte implicam rebocar embarcações até o Rio de Janeiro.
Num evento de governo estadual itinerante realizado em Santos, na mesma época, comentei com um então secretário adjunto sobre essa possibilidade. Ele me respondeu de forma lacônica que não interessava ao estado implantar indústrias poluentes em seu território.
Outra manifestação negativa na época partiu de um diretor do Navipeças, num evento realizado no Rio de Janeiro. Quando perguntei se não seria interessante uma planta industrial voltada à produção de peças e equipamentos para embarcações nas proximidades do Porto de Santos, ele respondeu que queria distância “daquele inferno”. Acho que ele não entendeu a pergunta, provavelmente pensando em acessos, e não na produção ao lado do Porto.
Ainda naquele tempo, o potencial da exploração do pré-sal na Bacia de Santos resultou na ampliação das instalações da Unidade de Operações e Exploração e Produção da Bacia de Santos (UO-BS) da Petrobras em Santos, que previa três edifícios e implantação de centro de pesquisa similar ao existente no Rio de Janeiro. Também fazia parte desse projeto a instalação de uma base de apoio “offshore” em área da Base Aérea de Santos, no Guarujá. Aquele projeto da Ilha dos Bagres também previa esse tipo de serviço. Por conta dessa expectativa e das próprias demandas do complexo portuário, fiz algumas pesquisas.
A Usiminas já produzia chapas de aço para uso naval (“blanks”), e a Usiminas Mecânica tinha planos para construir uma fábrica de blocos navais na área da usina, em Cubatão. O estaleiro da Wilson Sons, em Guarujá, já atuava em manutenções e construção de embarcações de pequeno e médio porte, inclusive de tipologia diferenciada. A Saipem implantava uma unidade também em Guarujá, com foco em atendimento às instalações “offshore” da Petrobras e outras operadoras que atuavam na Bacia de Santos.
No entanto, contrariando esse cenário promissor, apenas um prédio foi construído e os outros projetos foram descontinuados, por vários motivos, inclusive por interesses político-econômicos inerentes a estados que concentravam esse tipo de atividade.
O contexto não parecia propício, os interlocutores inadequados, ou a ideia despropositada.
Enfim, o assunto ficou adormecido, mas nunca esquecido. Não sei se poderia ser considerado como uma oportunidade perdida, daquelas que não voltariam a ocorrer. No entanto, o Porto de Santos e as cidades que o sediam têm algumas peculiaridades, mais especificamente no caso do Santos FC, comprovando que raios podem cair mais de uma vez no mesmo lugar.
Quando se fala em instalações portuárias, isso pode ser perigoso, mas estamos no campo da metáfora.
O Porto de Santos vem demonstrando inesgotável capacidade de se reinventar e de aumentar sua produtividade. Por conta de sua importância estratégica para o Brasil, investimentos em novos terminais e acessos terrestres e marítimo estão em curso. A expansão da poligonal do Porto Organizado de Santos e a potencial implantação de atividades de porto-indústria em sua proximidade acenam para um futuro ainda mais auspicioso.
Contribuindo para esse cenário, o evento SP Offshore 2025 trouxe o tema “offshore” novamente à baila, com foco em incrementar esse tipo de atividade no litoral de São Paulo, por conta de demandas que não podem ser suportadas pelos estados que historicamente têm concentrado o setor.
O evento teve sotaque majoritariamente carioca, mas com franco interesse na capacidade produtiva paulista.
Foi enfatizado que o Estado de São Paulo é um dos principais fornecedores de insumos, por conta de sua capacidade industrial e de P&D.
Foi anunciada uma base de apoio “offshore” em São Sebastião, o retorno da operação de helicópteros interligando o continente com as plataformas de exploração, e outras demandas. As empresas presentes alertaram sobre a necessidade de profissionais especializados, com ênfase em técnicos como soldadores e montadores, o que não dispensa profissionais graduados. Também foi abordado o processo de descomissionamento e desmonte de plataformas, inclusive FPSOs, e embarcações, cujo desmonte é matéria-prima para a indústria siderúrgica, o que já ocorre no Rio Grande do Sul.
Fiquei extremamente feliz ao encontrar uma ex-aluna, que se especializou no setor de petróleo e gás, trabalhando com tecnologia de ponta desenvolvida no Brasil.
Contrariando a visão daquele secretário adjunto estadual e do representante do Navipeças, de mais de uma década atrás, o secretário estadual de Desenvolvimento Econômico de São Paulo, Jorge Lima, enfatizou o interesse do governo nesse mercado.
Como a Usiminas desativou seus altos-fornos, o desmonte de embarcações e plataformas não seria uma opção, a não ser que houvesse destinação desse material para outras unidades de produção de aço da empresa.
No entanto, a desativação dos altos-fornos liberou espaços antes utilizados para armazenamento de granéis sólidos minerais, e o cais do TMPC tem períodos de ociosidade.
Não seria o caso de utilizar parte dessas instalações para implantação de uma base de apoio “offshore”? Não seria o caso de voltar a estudar a construção da fábrica de blocos navais, e até pensar na possibilidade de atuar no reparo e manutenção de plataformas de petróleo e embarcações, como ocorre em Angra dos Reis/RJ, por exemplo?
A construção do Túnel Santos-Guarujá prevê o enterramento dos cabos do “linhão” de Itatinga, o que eliminará a única barreira aérea existente no Canal do Estuário, permitindo o trânsito de estruturas “offshore”, que são as mais altas existentes, algumas superando 190 m de altura.
As escolas técnicas e universidades locais podem atender à demanda pela formação de profissionais para o setor, com um mercado de trabalho que se sustentará ainda por décadas, além de contribuir para a pesquisa científica.
As centenas de conferencistas que assistiram atentamente a todos os painéis dos dois dias do evento demonstraram interesse em que o Estado de São Paulo embarque nessa empreitada de forma ainda mais intensa.
As cidades costeiras, sobretudo as portuárias, são o locus ideal para seu desenvolvimento, que deve ser sustentado, gerando receitas e empregos, acompanhados dos necessários cuidados ambientais.
A diversificação econômica da Região Metropolitana da Baixada Santista é estratégica! E quanto mais puder aproveitar da infraestrutura e serviços existentes, tanto melhor.
Seguramente, haverá palavras ditas e pedras atiradas, daquelas que o ditado diz que não têm volta, partindo de quem acredita que os ônus serão maiores do que os bônus, antes mesmo que eles sejam avaliados. Mas que essa nova oportunidade não seja perdida!
Engenheiro, Pesquisador Universitários, Escritor e membro da Academia Santista de Letras