Os debates comerciais em Washington e o risco de desvio de foco
As audiências públicas que acontecem esta semana em Washington, nos Estados Unidos, sobre as propostas de novas tarifas contra o Brasil, são provavelmente o momento de maior tensão para o comércio exterior brasileiro nas últimas semanas. O que o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) decidir até o próximo dia 15 determinará se 4.187 produtos brasileiros, o equivalente a US$ 14,9 bilhões em exportações, enfrentarão uma carga tarifária acumulada de 37,5%, tornando-os não competitivos no mercado americano e forçando um ajuste brusco em cadeias produtivas de ambos os países. Nesse contexto, qualquer brasileiro que estiver em Washington esta semana deveria ter uma única preocupação: o interesse econômico do País. Quem foi com outra agenda, política, eleitoral, pessoal, comprometeu algo que não era seu para comprometer.
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) fez o que devia ser feito. Enviou o ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC) Roberto Azevêdo para representá-la na audiência dessa terça-feira, com o argumento correto: a tarifa adicional de 25% não se justifica jurídica, econômica nem estrategicamente, e prejudica empresas dos dois países. Dos 80 inscritos para falar nas audiências, 66 devem se posicionar contra as medidas, maioria que inclui empresas americanas que dependem de insumos brasileiros para suas próprias cadeias produtivas. Esse é o argumento mais eficaz disponível no processo do USTR: não a defesa do Brasil contra os Estados Unidos, mas a demonstração de que a tarifa prejudica a indústria americana tanto quanto a brasileira. Sessenta e dois por cento dos produtos potencialmente afetados são bens intermediários, insumos que alimentam linhas de produção nos Estados Unidos. Encarecer esses insumos é encarecer o produto final americano.
É nesse cenário de negociação técnica e diplomaticamente delicada que a participação do influenciador Paulo Figueiredo, aliado de pré-candidato brasileiro, com argumentos depositados no USTR defendendo que o tarifaço favorece o presidente Lula eleitoralmente, se transforma de episódio menor em problema real. Não porque a manifestação individual de um cidadão em audiência pública seja ilegal ou sem precedente. Mas porque o USTR não é um fórum de debate político doméstico brasileiro: é o órgão que decidirá se as exportações do País serão ou não taxadas com tarifas punitivas. Introduzir nesse processo argumentos eleitorais internos, sugerindo que a pressão americana beneficia uma candidatura, é, objetivamente, trabalhar contra os interesses comerciais do Brasil, independentemente do campo ideológico de quem o faz.
O BE News defende que o Governo Federal e o setor privado brasileiro precisam entrar, nas próximas semanas, em modo de unidade que raramente conseguem sustentar em condições normais. O prazo é curtíssimo: 15 de julho. As negociações técnicas com o USTR estão em curso, mas a janela se fecha em dias. Nesse intervalo, cada declaração pública de um representante brasileiro que contradiga a posição negociadora do País, cada argumento depositado no processo que desvie o foco da substância econômica para o jogo político eleitoral, cada sinal de divisão interna enfraquece a posição do Brasil numa negociação em que a outra parte, o governo americano, já tem todas as vantagens estruturais de quem ameaça com tarifas.
Roberto Azevêdo foi a Washington defender o Brasil com competência técnica e credencial institucional reconhecidas globalmente. Que o Governo, o setor privado e quem quer que se apresente como representante de interesses brasileiros nos próximos dias façam o mesmo: deixem a política eleitoral para o território onde ela pertence e usem cada minuto que resta antes do prazo para o único argumento que importa neste momento. O tarifaço prejudica os dois países. E o Brasil tem provas disso.