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Patrícia Lia Brentano

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Os filhos da mãe

Quando a gente olha para os números que movem o país, é fácil se impressionar com a escala, com o volume, com o crescimento. O que não aparece é o que sustenta tudo isso. 

Somos todos. E não é só uma frase de efeito, é um fato.

Antes de qualquer cargo, antes de qualquer decisão importante, antes de qualquer reunião em que se discutem bilhões, todo mundo começou do mesmo lugar: sendo filho de alguém. Filho de uma mãe.

E é curioso como a gente esquece disso.

Falamos o tempo todo de eficiência, de corredor logístico, de competitividade global, de custo Brasil, de gargalos, de soluções estruturantes — mas quase nunca falamos do básico, do que vem antes de tudo isso. De quem vem antes de tudo isso.

No Brasil que exporta, que cresce, que se posiciona como potência global em produção e logística, existe uma base que não aparece. E não aparece mesmo.

Não está no relatório, não está no gráfico, não está na apresentação bonita de PowerPoint, não entra no KPI, não vira meta — mas está em tudo.

Está por trás de cada profissional formado, de cada decisão tomada, de cada operação que acontece todos os dias.

São as mães.

As que seguram a casa, as que trabalham mais do que aparece, as que fazem caber o que não cabe, as que criam filhos praticamente sozinhas — e seguem.

E muitas delas estão dentro do nosso setor, nos portos, nas operações, nas áreas administrativas, nos bastidores. Num ambiente que ainda é duro, ainda é desigual e ainda pouco preparado para elas — especialmente para aquelas que também carregam a responsabilidade de cuidar de uma família inteira.

A gente gosta de falar de números grandes: safra recorde, movimentação portuária crescente, novos corredores logísticos, novas rotas de exportação, projetos estruturantes.

Mas ninguém chega nesses números sozinho. Ninguém.

Por trás de cada indicador tem uma trajetória. E por trás de muitas dessas trajetórias, tem uma mãe sustentando a base quando ninguém está olhando.

Quando a gente olha para os números que movem o país, é fácil se impressionar com a escala, com o volume, com o crescimento. O que não aparece é o que sustenta tudo isso. 

Tem vida real ali, tem mãe criando filho em contexto difícil, tem mulher assumindo responsabilidade cedo demais, tem ausência de estrutura sendo compensada com esforço pessoal, tem base sendo construída no improviso — e na força.

E talvez esteja aí um dos nossos maiores erros: achar que desenvolvimento é só infraestrutura. Não é.

Infraestrutura sem gente não sustenta nada, e gente não existe sem história, sem formação, sem base. E, na maioria das vezes, essa base começa com uma mãe.

Na semana do Dia das Mães, vale um incômodo simples — mas necessário.

Quem hoje toma decisão no Brasil — de investimento, de operação, de política pública — não veio de planilha, não foi formado em gráfico.

Veio de alguém que segurou, ensinou, insistiu, mesmo quando não tinha estrutura nenhuma para isso, mesmo quando o cenário era adverso, mesmo quando parecia impossível.

Talvez um país mais eficiente não seja só aquele que escoa melhor sua produção, reduz custo logístico ou ganha competitividade internacional, mas aquele que entende melhor a própria base.

Que respeita, que valoriza, que reconhece. E que para de tratar isso como detalhe ou como algo separado da lógica econômica.

Porque não é. No fim tudo está conectado. E por mais sofisticado que seja o debate — sobre portos, ferrovias, corredores e desenvolvimento — a verdade continua sendo simples:

Somos todos filhos da mãe.

E isso devia pesar mais nas decisões que a gente toma.

Patrícia Lia Brentano escreve quinzenalmente para o BE News.

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